Parabéns moderna senhora

Nasci em uma travessa dela, na extinta Maternidade de São Paulo, 24 anos antes do seu centenário. Devo ter cruzado seus caminhos nos primeiros dias de vida, indo para o Paraíso, onde meus pais moravam. Meu pai trabalhou um período nela, em um prédio de arquitetura moderna, e me levou com ele algumas vezes, geralmente aos sábados. Eu era bem garoto, tinha uns oito anos.

Também na juventude, após uma mordida de um macaco que quase amputou meu dedo, tive que tomar uma injeção enorme, dolorida e horrível no Instituto Pasteur. Até hoje aquela casa amarela de esquina me dá arrepios. Falando em trabalho, quando iniciei minha vida profissional numa agência de publicidade do meu amigo Pedro Ferraro, adorava marcar visitas por aquelas bandas. Parava o carro em um estacionamento na altura do número 2.300 – já eram caros, porém bem menos que hoje em dia – e ia visitar meus clientes de prédio em prédio… Parque Paulista, José Papa Jr., Olivetti, Horsa I, Horsa II… Aliás, até hoje não sei o que significa Horsa.

A Livraria Cultura do Conjunto Nacional é um capítulo a parte. Quantas histórias, descobertas e aquisições para a minha biblioteca. Uma vez em 87, na era pré-tucana, saí do trabalho com meu pai e fomos ao meu carro para uma noite de autógrafos de um livro de fotos históricas do PMDB da Sonia Russo. Todos estavam lá: FHC, Montoro, Quércia, Covas, etc. Na fila das assinaturas, atrás de mim, surge a musa da minha pré-adolescência Fafá de Belém. Conversamos, rimos e saímos juntos do evento. Na despedida ela pediu uma carona e deixei-a na porta de sua casa, na Rua Peixoto Gomide.

Em alguns anos antes, minha noite solitária seria bastante agitada. Em outra noite de autógrafos, há uns três anos, tive o prazer de conhecer o Reali Jr. que já apresentava sinais do câncer que o levou em abril deste ano. Foi simpaticíssimo e fez uma linda dedicatória no seu “Ás Margens do Sena” para mim e o meu filho Dudu que me acompanhava.

Outra marca dela na minha vida está ligada a liberdade. Naquele tempo os shoppings centers não haviam acabado com a sétima arte, nas suas salas diminutas. Cinema era ali, Center 3, Gemini, Gazeta, Gazetinha e Gazetão. Já era mocinho e podia ir com os amigos assistir “Flash Dance”, “Arthur”, “Guerra nas Estrelas”, “Betty Blue”, “Footloose”, “Conan”. Pegava o ônibus Ipiranga na Rua Caraibas, encontrava o pessoal na bilheteria e terminada a seção rolava um “Jack in the Box” com direito a melhor bomba de chocolate de sobremesa do mundo.

Foi no escurinho desses cinemas que aprendi as técnicas de invadir discretamente suéteres, camisetas, moletons e sutiãs, para poder assistir aos filmes com a mão repousada na rigidez – sim, naqueles tempos eles eram rígidos – e no calor de um colo. Confesso que ainda hoje em dia gosto de dar umas apalpadas no cinema, mesmo com os protestos da Patricia. Não podemos abrir mão de certos hábitos!

Inesquecíveis também as aquisições na feirinha do vão do MASP, os eletrônicos contrabandeados no Promocenter, a manifestação pelo impeachment do Collor, o primeiro contato no MASP com Renoirs, Rembrandts, Portinaris, Van Goghs…

Quando o Papai Noel existia em minha casa, as crianças me faziam enfrentar o trânsito de dezembro para ver os enfeites de Natal e o desfile deles na frente do Banco Real. Nem ele nem o Real existem mais. A única coisa que não me lembro de ter feito por aquelas bandas foi beber. Aproveito algum momento de ócio e pedir um Old Parr com duas pedras de gelo para comemorar os 120 anos da minha mais linda Avenida Paulista. Parabéns moderna senhora.

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