Parabéns a você

O bolo era deveras convidativo. O Anastácio Lourenço, proprietário de algumas casas na Rua Guaicurus no bairro da Lapa e de um pequeno prédio comercial na Rua dos Carijós, estava completando hoje, setenta anos de idade. <br><br>Veio-lhe de imediato na mente, a idéia de um sentimento se neste dia especial de sua vida, não estaria ele efetivamente, fazendo hora extra neste mundo de Deus. Todavia, achou por bem que ainda não estava. <br><br>Reunidos em torno de uma grande mesa no centro da sala estavam seus quatro filhos, as noras, e os netos. Ficara viúvo há pouco tempo, aproximadamente um ano. <br><br>A mulher morrera de um câncer em uma das mamas, depois de inúmeras tentativas de salvá-la. Uma biópsia feita no hospital Pérola Bayton, em São Paulo, confirmou a suspeita dos médicos. Depois de nove seções de quimioterapia, uma cirurgia para remoção dos linfonodos da axila e da mama esquerda doente, houve ainda a necessidade de realizar vinte e oito aplicações de radioterapia. De súbito veio-lhe a mente, com tristeza, que todo aquele tratamento sofrido e dispendioso fora sem dúvida, em vão. Infelizmente, sua esposa falecera. <br><br>Todo o fim de semana tomava ele um bonde na Rua Guaicurus esquina com a Rua dos Carijós, na Água Branca, e ia, como de costume, em direção ao centro da cidade. Depois se baldeava na Praça Ramos de Azevedo para o bonde Pinheiros, e seguia até um trecho da Rua Teodoro Sampaio e descia na esquina da Rua Francisco Leitão. Passava pela floricultura e mandava confeccionar um buquê de rosas vermelhas que ia depositar no túmulo da esposa, no cemitério São Paulo. Aquele gesto era instintivamente mecânico. Todo o final da semana ele executava aquele ritual. Um ano já se passara e ele ainda estava inconformado com a perda da companheira. Afinal de contas era uma união estável de mais de cinqüenta anos. <br><br>Apesar dos filhos, dos netos e das noras, o Anastácio se sentia sozinho. Hoje, pensou, iria completar setenta anos de idade. Os anos agora já começavam a pesar um pouco na sua existência. O diabetes já se instalaram, a hipertensão estava paralelamente se manifestando e os problemas com a próstata já produziam alguns distúrbios, comumente urinários. <br><br>Era ela, com efeito, a próstata, considerada pelos médicos, como uma hiperplasia benigna, próprio da idade. Os rins também estavam dando sinais de pequena falência. A creatinina estava acima dos valores normais. <br><br>Efetivamente, havia nele alguns sinais de preocupação. Necessitaria ele da hemodiálise? Felizmente, por enquanto, o médico afirmara-lhe que não. Aquilo era um prenúncio de que alguma coisa não ia muito bem com ele. A saúde do Anastácio começava a minar. Porém ele não se dava por vencido. <br><br>Espelhava-se na figura de um tio paterno, que morrera aos noventa e cinco anos de idade, sempre afirmando com plena convicção que, ali e com ele, estava tudo sobre o máximo controle possível. Realmente aquele tio transmitia um sentimento de segurança de dar inveja a qualquer um. O falecido Doutor Renato, um urologista de prestígio que cuidava de sua saúde, sempre afirmava que o velho tio do Anastácio vivera até aquela idade avançada, graças à segurança e otimismo, porque ele tinha muita auto-estima e confiança em si mesmo. O Anastácio sabia que ele, o tio, tinha alguns problemas de saúde, mas efetivamente, contornava a coisa com um contagiante e saudável “aqui está tudo sobre controle.” Aquilo transmitia para ele, o Anastácio, uma grande e certa segurança.<br><br>Lembrou-se também, do Gustavo de Corção, um jornalista do jornal O Estado de São Paulo, em uma de suas saborosas crônicas: “O que fazer agora com os meus dois pulmões bons”. O Gustavo, no seu escrito, dizia que o médico que o examinara estava “espichado” bem próximo de seu nariz, e tinha os cabelos lisos e negros, empastado de brilhantina e cheirava ao perfume enjoativo da “Glostora” que, encurvado sobre o seu tórax escutava-le o peito e as costas, e diagnosticara o mal da peste branca, e lhe dissera na lata que ele estava tuberculoso. O Gustavo, depois de receber a má notícia fez várias conjecturas e esmiuçou vários planos. Aonde iria se internar? Num sanatório em Campos do Jordão, um lugar ideal pelo ar puro da montanha? Ou ficaria por lá mesmo, em sua residência na capital, esperando a morte chegar. Naquela época não havia ainda um tratamento medicamentoso especifico e eficaz para os problemas da tuberculose. Depois de algum tempo, e que o médico que lhe dera a sentença do diagnóstico já se fora deste mundo para outro, para espanto seu, descobriu que o seu exame radiográfico dos pulmões, tinha sido involuntariamente trocado. E foi por esse motivo justificado que ao dar tratos a imaginação, redigiu a sua própria crônica. <br><br>Esses pequenos exemplos traziam simultaneamente um certo conforto espiritual e uma invejável confiança na sua boa compleição genética. Sempre gozara de boa saúde. Quando jovem, raramente ficava adoentado. Agora, infelizmente, devido à proximidade da idade avançada havia alguns problemas de saúde que começavam atormentá-lo. Lembrou-se ainda de outro tio, irmão de sua mãe, um dos pioneiros na farmácia de manipulação "Ao Veado de Ouro", legítimo calabrês de Pizzo de Calábria na ponta da bota, acostumado como estava, só comia risoto feito com carne de cabrito, regado sempre com um generoso bom copo de vinho italiano. Os dois sócios portugueses, proprietários da padaria da Praça Guaricanga na Lapa, eram testemunhas oculares e participantes efetivos daquele ritual da cerveja Caracu misturada com um ovo cru, tudo batidos no liquidificador, tomado religiosamente lá pelas cinco horas da tarde. O velho farmacêutico, para espanto da platéia, degustava um vidro inteiro de pimenta vermelha e fazia com assídua regularidade uma dobradinha de bucho de boi regado no molho ardido da pimenta do reino. O Anastácio pensava: Teria aquele tio estômago de avestruz? O fato era que o velho tio do Anastácio morreu com cento e dez anos de idade. <br><br>Aquela somatória de acontecimentos reais trazia-lhe um certo conforto espiritual. Morreria sim, um dia. Mas estava disposto a adiar o tal momento. Foi até a padaria da esquina, comprou o bolo do aniversário e duas velinhas. Uma de sete e outra de zero. Reuniu toda a família em torno daquela mesa e cantou com os filhos, noras e netos os parabéns à você.<br><br>E-mail: [email protected]