Palmiro, o taxista

Palmiro era centro avante do São Cristóvão do Itaim. Tinha o mesmo perfil de Ademir Queixada, centro avante do C.R Vasco da Gama do Rio de Janeiro, e centro avante da seleção brasileira. Vice-campeão do mundo de 1950. Até a fisionomia era do Ademir Vascaíno. O progresso foi se acentuando e os campos de várzea foram terminando. O campo do São Cristóvão, onde também joguei em 1959, teve seu terreno vendido e ali feita uma igreja de crente. Um dia ergueram novamente o São Cristóvão. E quando vi estava de frente com Palmiro, ele já veterano envergando a camisa nove do seu São Cristovão, e eu goleiro do Flamengo da Vila Olímpia. Foi um dia inesquecível para mim (1962). O São Cristóvão fazia naquele dia o 13º jogo, e estava invicto a 12 partidas. Me lembro do Rodolfo no gol do São Cristóvão, do Balota (Osvaldo) na lateral esquerda, do Gazal na ponta esquerda e o glorioso Palmiro centro avante. Logo de início o São Cristóvão marcou um gol. Levei uma bronca do meu beque central seu Luis por ter saído lentamente do gol na hora que um adversário veio a minha frente. Logo depois Antonio (Ignácio) empatou. Daí para frente eu fui o dono do espetáculo. Na verdade o São Cristóvão era muito mais time que o nosso Flamenguinho (era o jogo preliminar, o segundo quadro como se dizia na época). No segundo tempo o São Cristóvão veio todo para cima de nós. E eu ia pegando tudo. Marcamos o segundo gol, eles não queriam acreditar no que estava acontecendo. A bola veio da direita e Palmiro de voleio mandou no meu canto esquerdo, e eu me estirando todo mandei para escanteio, com a mão esquerda, que não era meu forte. O São Cristóvão era todo ataque o que nos dava a chance de contra ataques. Num desses, marcamos o terceiro. Com 3 x 1 e eu pegando tudo nossa vitória já parecia certa. Logo depois outro centro da direita e Palmiro sozinho dentro da pequena área, cabeceou certinho no meu canto esquerdo novamente.
De novo voei com tudo e mais uma vez a bola foi a escanteio. Caído no chão vejo Palmiro quase se ajoelhando em cima de mim gritando: O que você tem hoje, filho da puta. Não me contive dei muita risada. Na verdade éramos grandes amigos apesar de ele ser bem mais velho do que eu. Vencemos o jogo por 3 x 1. Ao termino da partida todos aqueles que estavam em volta da cerca do campo do Marechal Floriano foram perto do vestiário para ver de perto quem era aquele pentelho que evitou a derrota do Flamengo por uns 7 x 3. Nunca me esqueci daquele dia. O futebol tem dessas coisas, um dia dá tudo certo. Outros…
Em outra ocasião fomos jogar no campo das Monções. Bairro que era a extensão do Brooklin Novo. O jogo era conta o próprio Monções clube que jogava Canhoteiro depois de parar com o futebol profissional. Era um jogo pela manhã. O campo todo de terra amarelada. Grama só nas laterais, assim mesmo um metro e meio para dentro da linha. Para a marcação das áreas pequena e grande foi feito a demarcação da linha com uma enxadinha que acabava formando uma valeta. Coisa comum nos campos de várzea. Teve um lance em que o adversário chutou uma bola no meu canto direito e eu me atirei nela, mas a bola bateu naquela demarcação e foi para o meio do gol. Quando voltei o corpo para o meio, a bola lentamente ia caminhando. E passou por debaixo da minha barriga. Uma grande alegria para quem gostava de chamar o goleiro de frangueiro. Mas teve uma pessoa que disse que aquilo não foi frango. Foi um elefante branco, dizia ele para a gargalhada de todos. A gozação foi muito grande. O futebol me deixou boas recordações. Mesmo quando apareciam belos frangos.
Muito tempo depois, início dos anos 1980, encontrei Palmiro dirigindo um táxi. Me deu uma carona até a avenida Santo Amaro. Fomos conversando, relembrando velhas passagens do Itaim. Aquele jogo também. Isso não poderia deixar passar em branco. Ele disse que estava morando na Vila Olímpia, Rua Alvorada. Na conversa pude ver como era versátil e criativo. Contou-me que pegou um passageiro por ali mesmo o levou até a Rangel Pestana. O cidadão era um executivo do serviço público estadual. Trabalhava numa secretaria de estado. No dia seguinte viu novamente o cidadão acenando para pegar o táxi. Então teve uma idéia. Disse para o passageiro: Vamos fazer um acordo? Em vez de o senhor sair à procura de um táxi, como faz todo dia, que tal eu já ir a sua casa logo cedo e pegá-lo. Tal pedido foi aceito. Nas conversas que tinha com ele viu que ele era um sujeito ocupado e tinha que pagar suas contas. Doutor (palavra muito usado por taxista) que tal se eu pagar suas contas para não ter que perder seu tempo. Outra proposta aceita. Ele já ficava logo cedo com todas as contas, luz, água, carnês, etc. Das contas ele ganhava um porcentual. Não demorou muito veio outra proposta. Desta vez do cliente. Seu Palmiro vou te dar outra tarefa. O senhor vai todas as sextas feiras levar minha mulher no super mercado e depois deixá-la em casa. Do supermercado veio também as terças feira para levá-la a feira. Com isso Palmiro estava trabalhando somente para um cliente. Não tinha salário fixo. Ganhava por cada serviço realizado. Era dinheiro vivo a cada termino de trabalho. Se vivo for, Palmiro deve ter mais de oitenta anos.