Páginas em branco

Tudo começou em 1971 com um mero caderno brochura, comprado ali na lojinha da dona Manoela, e muita vontade de aprender. Lembro-me como se fosse hoje, sua capa era parda, meio amarelada, a textura do papel meio áspera ao toque, uma borboleta desenhada na parte da frente e um pequeno retângulo, onde deveria se escrever o nome. O hino nacional inscrito na contra capa, o qual eu ainda não sabia decifrar, pois estava começando a aprender a ler.

Este foi o meu primeiro caderno brochura, o qual levava orgulhosamente na mão, juntamente com um lápis e uma borracha ao caminho pra escola, o Grupo Escolar Matilde Macedo Soares, no bairro do Limão.

Estava com meus seis anos de idade e na volta do primeiro dia de aula, encantada com a escola, logo que vi minha mãe no portão, abri o caderno e mostrei-lhe o que havia aprendido. A minha primeira professora, dona Claudete, havia ensinado naquele dia como escrever a letra A. Assim, logo que abri o meu caderno, o que se via era uma folha inteira com letras As, um pouco tremidas, não muito bem feitas, mas que pra mim eram o máximo da perfeição.

E lá vinha eu, durante todo o trajeto de volta pra casa, fascinada e comentando sobre minha primeira aula. Falei sem parar e contava, de maneira muito ingênua, que havia aprendido a fazer a letra "A", e para fazê-la era só "desenhar" uma bolinha e puxar uma perninha. E emendei que havia sido um pouco difícil, mas consegui escrever a folha toda.

Minha mãe riu e disse, no seu modo simples de se exprimir: – "Toda nova lição é difícil no começo, mas se você estudar, com o tempo vai ficando fácil”. E completou: "Vai com calma que ainda tem muita coisa pra aprender". Uma baita lição de vida.

Logo este meu primeiro caderno se findou, recheado de letras e pequenas palavrinhas, e foi prontamente substituído por outro, também de brochura, o qual, senão me engano, na capa trazia o desenho de um menino carregando uma bandeira.

Assim, foram os primeiros anos de escola, sempre com parco material escolar utilizado de maneira frugal, mas com uma gana de aprender que sobrepunha qualquer falta de recursos. Fui preenchendo folhas e mais folhas durante todos os anos escolares que frequentei, guarnecidas de letras, palavras, sentenças e composições, subsequentemente, numa justa equação de acertos e erros que culminavam sempre a favor de um melhor aprendizado.

Penso que o primeiro dia de escola foi marcante de forma diferenciada pra cada um de nós. Pra mim foi o fato de compartilhar aquele meu primeiro passo com minha mãe e ela presentear-me com palavras que, na época, não tinham o sentido profundo que observo hoje, mas que de certa forma ficaram guardadas no meu subconsciente.

Aquele mesmo princípio venho tentado transpor simbolicamente a minha vida. Páginas em branco que vão sendo preenchidas por experiências, que com o tempo se transformam em momentos enriquecedores, assim como as palavras de minha mãe naquele primeiro dia de aula. Às vezes não com tanta calma, como ela proferiu, o que concluo que ainda tenho muito que aprender.

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