As padarias em São Paulo sempre me encantaram. Lembro-me pequeno saindo do prédio onde nasci em Pinheiros e indo com a minha mãe comprar o pão fresquinho para o lanche. A conta, quase sempre, incluía aquele pãozinho a mais que através do seu cheiro hipnotizante e troca de calor com as mãos, já se sabe que não chegará em casa.
O que era para ser apenas padaria, a cidade acabou transformando em muito além. A padaria tornou-se um ícone dentro do cotidiano do paulistano a tal ponto que vinculou sua imagem à metrópole. Dentro destes estabelecimentos, passa um sem fim de pessoas e histórias, conversas descompromissadas, provocações futebolísticas, lamentações, e até roda de samba.
Entrei naquele fim de tarde na padaria próxima à minha casa, como em quase todos os fins de tarde. Sentei-me praticamente no mesmo lugar onde tomo todos os dias pela manhã um café com leite pequeno e um pão na chapa. Não que isso seja uma mania ou superstição, pode até parecer, mas apenas acho aquele lugar estratégico. Observo as manobras do chapeiro, os movimentos coordenados dos balconistas, vêem o meu cachorro que está do lado de fora e tenho as coxinhas e salgados bem perto. Perto a ponto de ser possível perceber aquele salgado que foi preparado há mais tempo, pela absorção do papel que o contém. O chapeiro, num gesto automático ao me ver, começa a cortar o pão e passar manteiga. Ao final, por cortesia, ele sempre inclui um mini-pão de queijo, garantindo sua gorjeta. O balconista me pergunta:
– O de sempre?
A televisão segue mostrando o noticiário sensacionalista e superficial dos fins de tarde. Pessoas entram e saem. Um se senta no balcão, faz qualquer gesto para o balconista que entende e traz uma dose de cachaça. O cliente, com aquela cara de quem passou por um longo e cansativo expediente, emenda:
– Espreme um limão!
Dois homens simples entram, sentam-se no balcão. Trazem no rosto e na expressão as marcas de como a cidade pode ser cruel com quem não tem chance ou sorte. O mais jovem é bem claro em seu pedido ao balconista:
-Uma cerveja, por favor. A mais barata que você tiver. E dois copos.
Enquanto como meu pão, vez ou outra reparo na tristeza estampada nos rostos dos sujeitos. Principalmente do mais novo. O mais velho parece calejado. Apenas toma sua cerveja, como se aquilo fosse a coisa mais importante na sua vida, ou talvez a única. O que sobrou. Pouco se falam. O outro que havia pedido a cachaça, já se levantou e foi embora. Imagino como ele se sairia contra um bafômetro naquela hora. O senhor que toma cerveja, olha para a barra de salgados. Apenas olha. Não pede. Não pode? Não tem.
O hábito de frequentar padarias eu adquiri quando morei em Higienópolis, um bairro tão caótico quanto funcional. O Souza já me servia sem perguntar nada. Ao trazer aquele belo pão chapado e o café com leite espumante, era regra reclamar que acordou às cinco da manhã, que pegou três conduções, e que o filho estava doente. Na sequencia, me oferecia o jornal do dia. Às vezes, só com a página de esportes, que era a que realmente interessava. De trás do seu avental surrado, o chapeiro soltava uma frase, tipo:
– Seu time entregou mais uma hein doutor…
Uma meia dúzia de palavras lhes eram sempre retribuídas na mesma moeda:
– É, mas é o seu time que vai cair…
Dava a impressão que aquilo fazia parte de um ritual: entrar, sentar-se ao balcão, cumprimentar o dono bigodudo, o jornal, as lamúrias, as provocações. Quando mudei de bairro, percebi que a padaria já se tornara para mim uma instituição.
As padarias pela cidade podem ser mais ou menos equipadas, com maior variedade de produtos, mais bem instaladas, mais caras, mas uma coisa é certa: pra se medir a qualidade do estabelecimento, nada melhor do que um pão na chapa e um café com leite. Não tem erro. No copo americano ou na xícara, com muita manteiga, prensado, natural, na canoa. Na sequencia, o jornal. Se o chapeiro não provocar, provoque. E os milhares de Souzas atrás dos balcões estarão sempre atentos ao movimento do freguês habitual:
– Até amanhã, doutor, se Deus quiser!
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