O joguinho travado pelos diversos compartimentos da minha memória é qualquer coisa de interessante.
A memória gustativa, muito aguçada, traz sabores à minha boca – sabores estes logo detectados pela memória olfativa que, por sua vez, juntam-se aos sabores seus respectivos olores.
Então, a memória visual é requisitada e mostra, com riqueza de detalhes, a imagem evocada pelos sabores e olores.
Pronto, está delineado o pequeno quebra-cabeça, e eu pobre coitado, fico a ver navios, pois o estomago, reclamando, nada recebe.
Hoje, praticando esse joguinho, veio à minha boca o gosto de uma bacalhoada, de imediato, sinto o cheiro que vai se acentuando enquanto o prato em questão vai fumegando ao meu olhar. Lembro-me então onde eu, levado pelas mãos de meu pai, em noites de rega-bofe, podia degustar bacalhoadas incrivelmente deliciosas.
A primeira casa era uma adega no início da Rua Silveira Martins (hoje, se não estou enganado, está ali instalado um comércio de artigos para artesanato), cujo nome não me vem à memória. Era uma casa de pasto muito bem frequentada, famosa por sua cozinha, mas de apresentação simplória. Um vasto salão, com mesas em toda a sua extensão. No fundo do lado esquerdo, um balcão frigorífico, onde, além de guardar os vasilhames das bebidas frias e quentes, guardava também os frascos com um líquido precioso e bastante caro, o azeite de oliva estrangeiro (italiano, espanhol ou português), que quando solicitado pela freguesia era pesado ao ir para a mesa e depois de devolvido, para que o azeite consumido fosse calculado e cobrado na conta.
Um outro local muito famoso que também agradava às minhas preferências alimentares era Adega Portuguesa. Ela estava localizada à Rua Brigadeiro Tobias, quase esquina com a Rua Riskallah Jorge, atrás da antiga seda da "A Gazeta", na Rua Cásper Libero. Essa casa era muito mais luxuosa que a anterior. Assim que se entrava na casa, deparava-se com uma pequena e decorativa ponte que precisava ser atravessada para se chegar ao salão principal. Os bolinhos de bacalhau que eram servidos como entrada eram simplesmente divinos. Tudo era de primeiríssima qualidade, inclusive os shows, sempre com artistas famosos.
Antes de encerrar estas memórias é preciso que registre duas outras casas, não tão antigas como as primeiras, mas ainda assim de excelente qualidade, são elas Bacalhau do Porto, na Rua Vergueiro, e o Restaurante Presidente, na Rua Visconde Parnaíba.
O melhor, agora, é fazer como meu camarada Morais Sarmento e, batendo minha rica plumagem, ir saindo de fininho.
Bom apetite a todos…
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