Ossos Quebrados do Ofício

Na minha empreitada como roqueiro e músico passei por várias situações inusitadas. Uma das mais insólitas aconteceu em dezembro de 1987. Naquela época eu estava começando no contrabaixo e ainda não tinha uma técnica muito apurada. Como foi o boom do rock brasuca, com dezenas de bandas surgindo de norte a sul do país, era natural que muitos garotos quisessem formar seu grupo e fazer sucesso. Costumávamos dizer que havia uma banda em cada esquina de São Paulo. Minha inspiração vinha de fora. Ouvia Iron Maiden, Sabbath, AC/DC , Mettalica, Led Zeppelin, entre outros. Mas também havia um monte de grupos legais em terras tupiniquins como Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso, Ira!, Legião Urbana, e por aí vai. Muitas delas em atividade até hoje.
Em maio de 1987 fui convidado para ingressar numa banda que faria cover de Ultraje a Rigor, Legião e Paralamas. Achei que seria uma boa experiência, pois os caras que integravam o grupo eram bons músicos. O guitarrista tinha uma boa técnica e era criativo nos riffs, o baterista era o mais novo, mas demonstrava uma pegada fora do comum e o vocalista tinha carisma e agradava a mulherada pulando no palco e fazendo extravagâncias. Ensaiávamos na garagem da casa do vocalista nos sábados à tarde e como ele era "mauricinho" costumavam aparecer umas gatinhas para conferir o ensaio. Aos poucos as canções foram ficando legais e não demorou muito para acharmos que estávamos no ponto de mostrar nosso talento musical.
O Natal estava chegando e, não me lembro quem, arranjou um show beneficente em prol de uma casa de assistência à crianças carentes. A apresentação seria no Parque Ecológico do Tietê, em São Miguel Paulista, às margens da Rodovia dos Trabalhadores, atual Aírton Senna. Era um domingo ensolarado e quando chegamos vimos que o evento seria de grandes proporções. O palco era gigante, estrutura de ferro com uns vinte metros de comprimento por quinze de largura. Para que todos tivessem uma visão boa do palco a estrutura tinha três metros de altura. Como havia muitas atrações entre grupos de samba, reggae, dança e duplas sertanejas ficou decidido que tocaríamos cinco músicas. Entramos no palco e detonamos três do Ultraje a Rigor. Graças às micagens do vocalista caímos nas graças da galera que cantava e pulava empolgada. Na quarta música, porém, aconteceu o inusitado. Sem perceber cheguei muito perto da beirada do palco, perdi o equilíbrio e me esborrachei no chão. Meu contrabaixo desplugou do amplificador e ficou aquele ruído horrível e estridente de microfonia. Quase fiquei inteiro, minha perna esquerda sofreu um trauma, que mais tarde me informaram ser Traumatismo Sintomático Parasimpático. Felizmente havia uma ambulância para atender as emergências, já que fazia muito calor e algumas pessoas desmaiaram com insolação. Colocaram uma tala em minha perna para ficar imobilizada. Meus amigos vieram me perguntar se dava para continuar tocando, pois o público pedia a nossa volta. A solução foi tocar sentado numa cadeira colocada bem no meio do palco para evitar qualquer outro dissabor. Depois tive que ir a um hospital para engessar a perna. Fiquei de molho por dois meses até que pudesse voltar a ensaiar. São os ossos quebrados do ofício.