São doces as lembranças que recordamos, vem somente em reminiscências, como vinham os vendedores, trazendo as poucas alternativas de consumo, comunicando a existência de seus produtos: o velho de avental todo branco, com as faces coradas e o chapéu-chile* impecável, gritava por toda rua para ser ouvido: “Sfolhatella! Sfolhatella!… Sfolhatella!…”. O peixeiro, com sua cesta de vime balançando, e no seu dialeto italianado soltava a voz: ”peche frescu, peche frescu, pechero, pechero”. O original brechó ambulante oferecendo roupas velhas. Roupa velha! Roupa velha! Roupa velha! Uah… Uh!… Encerrava com esse agudo estridente. O portuguesinho com seu triciclo ligeiro, e seu sotaque lusitano: olha o sonho, olha o sonho.
São os devaneios de uma inocente infância, onde nem sempre havia um cruzeiro, “a manolita”, para comprar o doce sonho.
Esses eram os principais gritos ouvidos nas décadas de 1950/1960 na Mooca e Brás antigos, onde infelizmente a escrita não descreve a beleza da comunicação e a singeleza dos apelos da venda na época. Além dos ambulantes a vender quebra-queixos e biju (em castelhano “barquijo”). Na porta do G.E. Eduardo Carlos Pereira havia o vendedor de “machadinho”, doce duro, na maioria das vezes já devidamente cortado no tabuleiro (o doceiro quebrava o caramelo com a machadinha), para adquirir-se antes do início das aulas. Havia o exageradamente delicado vendedor de geléia, cujo epíteto era “Meleca”, gordinho, faces rosadas, calça culote e a cesta de vime a oferecer seus doces e encantos.
Naquele tempo era tudo entregue em casa: pão, leite, verduras, até os miúdos de boi… Através da carroça do tripeiro com sua inconfundível buzina de apertar. Nas ruas vendiam-se também galinhas e frangos (vivos), mortos em casa, utilizando-se a arma exterminadora: o cabo da vassoura! Um verdadeiro assassinato: “Prendia-se o pescoço da ave no cabo da vassoura, segurando e apertando o mesmo cabo com o pé direito. A ave era puxada com força através dos seus dois pés, até destroncar seu pescoço. Ela se estrebuchava, agitando-se convulsivamente, até perder as forças”.
Após alguns segundos se encerrava o assassinato, cortava-se o seu pescoço através da faca de cozinha, e o sangue que se despejava em uma tigela, aproveitava-se para… Fabricar morcilla… O chouriço nacionalizado!
*Chapéu-panamá de palha fina feito com fibras de bombonaça.
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