Os Natais da minha vida

Em toda a minha infância o Natal era um dia que as crianças ganhavam presentes e eu ganhava brinquedo barato, como um caminhãozinho, uma bola, um pião de alumínio que rodava sobre pressão, ou outro brinquedinho qualquer.<br><br>Um presente inesquecível foi em 1953, quando fui ao açougue, coisa que fazia todos os domingos pela manhã, que a mulher do açougueiro disse que na semana do Natal, logo no domingo seriam distribuídos presentes a crianças do bairro na Rua Ribeirão Claro, Vila Olímpia e me deu uma senha para tal. Foi nesse dia que ganhei o ultimo presente natalino, uma bola de borracha que recebeu chutes por muito tempo, até que uma cerca de arame farpado fez o favor de furá-la.<br><br>Depois de alguns anos saindo da adolescência entrando para a juventude não ganhei mais nada. Dos dezoito aos vinte sete anos, passei os natais na rua, sendo que na véspera de Natal do ano de 1968 uma namorada me levou á casa de um tio dela e foi o primeiro Natal que não passei zanzando na Rua. Foi uma noite muito agradável com os donos da casa muito solícitos. Colocaram-me bem à vontade e a festa foi até a madrugada e depois fui levar a namorada na casa dela, que ficava num casarão da Vila Buarque dos ex barões do café, que alguém alugou e subalugava os quartos para pessoas solteiras. No dia ela, que trabalhava na telefônica, foi cumprir a sua missão de interligar as pessoas através da linha de comunicação, trabalho que foi até ás 18h, ai o Hotel Rialto, localizado na Rua da Consolação em frente à Biblioteca Municipal nos recebeu, onde ficamos até a meia noite "trocando figurinhas".<br><br>De 1958 até o de 1968 eu comemorei os natais na rua sempre em boa companhia, não só com uma companhia como de vez em quando com varias, e isso acontecia quando era convidado a ir ao sexto andar do numero 69 da Rua dos Andradas, onde funcionava um RendeVous, em que os mais chegados da casa e as mulheres comemoravam o Natal como se fosse um Natal familiar. As mulheres tanto do sexto andar como nos andares superiores ou inferiores que não iam passar com a família levavam algum tipo de comida e, os homens na mesma situação levavam as bebidas e, a comemoração era feita em uma mesa com uma bela arvore de Natal ao lado.<br><br>Era um dia que os quartos ficavam de portas fechadas. A senhora Carmem desligava as lâmpadas da arvore deixando somente as lâmpadas do presépio acesas. Era feita uma oração, com um texto do programa "o Domingo" panfleto oficial das missas dominicais da igreja católica, e depois de um Pai Nosso e uma Ave Maria participávamos da ceia de Natal.<br><br>Apesar de estar em uma casa tida como sendo “do pecado original”, a reza era feita com o maior respeito com pessoas fazendo o sinal da cruz. Os que não sabiam espalhar pelo corpo, o faziam em voz alta. A partir daí senhora Carmem tirava o peru do forno (presente dela) aos que participes do ano inteiro da sua casa. Era um Natal em família, uns diziam família dos solitários ou renegados pela família que ali se emocionavam quando um ser qualquer presente se mostrava poeta e declamava seus versos nem sempre bem concatenados e muitos sem nexo, dava para entender nas "mal traçadas linhas" o sentido que um semi-analfabeto, ou um intelectual bêbado, colocava no papel e com dificuldade se posta a ler.<br><br>Era como dizia o padre Jeremias da igreja católica da Vila Olímpia. O Natal é Santo quando comemorado até mesmo numa casa onde se concentra um enorme numero de mulheres desprezadas pela sociedade hipócrita. E, foi em uma dessas casas que um padre foi convidado para dar sua benção a aquelas pessoas que praticamente não iam à missa aos domingos de festas e guardas. Chegando a casa, o padre meio sem jeito ficou descontraído, quando as mulheres se apresentaram com vestido pouco abaixo do joelho, e com decote descente. Em sua palestra o padre disse, que nem sempre as pessoas que vão a todas as missas são os melhores religiosos.<br><br>E contou a historia de um menino, filho de uma família católica que exigia que ele fosse a todas as missas dominicais. E ele cumpria religiosamente a determinação de seus pais, e logo que voltava para casa depois da missa, colocava um milho no seu cofrinho destinado a moedas, para conferir o número de missas que ele havia frequentado durante o ano inteiro.<br><br>Um domingo ele dormiu um pouco a mais, e não foi à missa, bastante chateado resolveu cumprir sua missão religiosa em sua própria casa. E como ele se sentiu como se estivesse na igreja colocou também o milho no cofre. No ultimo dia do ano quando ele quebrou o cofre de barro para ver quantos milhos estavam no cofre, para sua surpresa tinha somente um milho, e foi justamente aquele milho que ela colocou rezando em sua casa. Moral da historia: foi o dia em que ele realmente rezou pensando em Deus.<br><br>Mesmo sendo um rueiro inveterado eu gostava de ir à Missa do Galo, que era rezada a meia noite, já entrando no dia 25 de Dezembro, mas passou para ás 21h por causa de assaltos, já naquela época final dos anos 1960. Como circulava muito pelo Jardim Paulista gostava de ir, e fui muitas vezes á igreja de São Gabriel, situada na avenida de mesmo nome. A minha "vida de pecador" terminou em maio de 1969, quando me casei, é bem verdade que carola não fiquei, também não fui a todas as missas de festas e guardas, mas continuei respeitando a igreja, fazendo o sinal da cruz ao passar em diante delas.<br><br><br>E-mail: [email protected]