Os festivais de música brasileira que nós (não) ganhamos

Corriam as décadas de 60/70 e proliferavam os festivais de canção, da música popular Brasileira e tantas outras.

Nós dois, o Miguel e eu, como jovens sonhadores já tínhamos quase tudo pronto.

A letra, feita, pronta e acabada. Os rascunhos tinham sido substituídos, rabiscos, e emendas feitas, agora estava tudo pronto. Só faltava a inscrição e aguardar o resultado final.

Antevíamos tudo. O teatro lotado, famílias reunidas, claques afiadas.

Já tinham sido apresentadas as pré-classificadas, do quinto lugar ao segundo, todos já haviam visto, só faltava o primeiro lugar, a nossa, só faltava o Blota Junior ou outro apresentador importante mencionar nossos nomes, "Autores: Chammas e Munhoz, música…" e a multidão irrompia em aplausos, assovios, algumas vaias, por que não?, sobrepondo-se à voz do apresentador e o sonho se realizara. Talvez, uma Elis, ou um Simonal, um Taiguara até derramasse lágrimas ao interpretar nossa marcha rancho. Um sonho, uma vida, a glória.

Mas esquecêramos de algo. Faltava a partitura. Era o regulamento. Pseudônimo, duas cópias da letra, duas cópias de música e lá íamos nós em busca de um músico que escrevesse aquilo que cantarolávamos.

E toda noite saíamos. Pena não termos mais o Agostinho dos Santos, ele era aqui do Bexiga e arrumaria um maestro para nós, lamentava-se o Miguel. Minha prima é música, ela pode escrever, dizia eu, e lá íamos nós pro Brás, para encontrar a Margot. Mas o destino conspirava. Abotelados no velho e querido Gordini que eu comprara, assumindo prestações que meu velho pai sorrateira e matreiramente saldava, andávamos por toda São Paulo na busca de um músico. "O Chico Egidio faz isso pra mim", dizia o Miguel e me lembro estarmos perdidos nas ruas de Interlagos e ninguém sabia onde estava o admirado e querido dono daquele vozeirão todo.

E quantas e quantas vezes sonhávamos sendo empurrados pela multidão de fãs enquanto empurrávamos o Gordini. Eu, que me imaginava assinando autógrafos, só rabiscava recibos do Touring Club ou do Automóvel Club por mais um serviço de guincho que aquelas empresas me prestavam. Muito precavido era sócio das duas e as usava alternativamente, só para não queimar meu prestígio com nenhuma delas. Devo dizer que tudo que sei de caminhão: suas marchas, volantes etc. eu devo ao Gordini por tanto de guincho que eu andei. Alias, descobri depois que meu pai virava pro outro lado e dormia tranquilo toda madrugada em que ouvia o barulho de correntes, tocos de madeira e aquele ta ta ta ta do guincho pondo o meu carro no chão. Hoje é uma plataforma, tudo mecanizado e nem graça tem.

Mas os festivais continuavam. Neste ano não achei o Chico Egidio, mas no ano que vem a gente acha e fazemos as coisas direitas. E víamos os resultados. E a inevitável comparação. Bem, se perdêssemos, perderíamos por pouco, era o sonho e consolo constante e com isso fiquei conhecendo quase toda São Paulo, muito mais conhecido no Touring Club e, principalmente, repeti o ano por faltas. (Nem tenho vergonha em dizer, mas acho que foram dois.)

Da argila nasce o tijolo, deste a parede que sustenta a casa, ou seria uma catedral?

Daquelas ingênuas madrugadas, surgiu o sonho e este gerou a amizade. Talvez os versos imperfeitos fossem a liga de dois caminhos, independentes e individuais como cada um deve ser, mas uno e pleno como toda amizade deve gerar. Nossa marcha rancho não ganhou nada, os versos podem ter ficado perdidos naqueles papeis amarelados e dobrados que a gente só acha quando muda de casa ou faz aquela faxina geral.

E, gozado, a gente quando acha um papel daqueles, para tudo e deixa a mente vagar, passear, flutuar, e se esquece de tudo. Põe tudo na caixa outra vez e vai reler naqueles versos aqueles anos 60, anos 70. Os sustos e apertos, os sonhos, as glórias, a realidade que vivemos. Nada mais vale. Só vale o lastro que se solidificou, a amizade que ficou, a catedral que se construiu.

E, quem duvidar que a catedral permanece de pé, tente derrubar.

P.S. Parabéns parede maior desta catedral pelos seus 69 tijolos…

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