Quando fomos morar na beirada do córrego da traição, que durante vinte anos não tinha denominação oficial, já em 1951 se sabia que ali seria uma avenida (hoje avenida dos Bandeirantes). Mas na prefeitura constava que era uma praça. Uma praça sem nome. Para receber mercadorias, o gás, ou material de construção, vários nomes se dava aquele pedaço que infernizava os moradores. Não bastasse não ter luz no bairro. Vivemos na base do lampião e da lamparina, até 1953. Mais o que mais nos alegrou, foi dois currais de vacas que tínhamos um perto do outro. O mais próximo era na Rua Ponta Delgada, bem perto do córrego da traição. O outro era mais adiante onde tinha um campo de futebol (a Portuguesinha da Vila Olímpia). O curral que íamos pegar o leite todas as tardes era do Totó, ficava quase em frente de nossa casa. As 17h30 ele já estava sentado em seu banquinho puxando as tetas das vacas e o leite quentinho espirrando no balde. Depois ia para o latão do leite como a gente dizia. Um dia o xereta do meu irmão José, tirou o pano que estava na boca do latão, que era para coar, e não deixar algum detrito entrar, viu que tinha um pouco de água. Gritou Totó, você esqueceu de tirar a água que lavou o latão! Na verdade era aquela aguinha é que dava um pouco mais de leite. O lucro. Como gosta de dizer pessoas que nascem no país do sol nascente. Naquele tempo se comia tudo de prima. Ao lado do curral tinha a chácara, de um português. Era verdura fresquinha. Minha Mãe não gostava muito porque ele regava as verduras com a água do córrego. Na verdade o córrego tinha água limpa, a única sujeira que podia ter era o cascão dos nossos pés. Tinha também ovo fresco, pois todas as casas tinham seu galinheiro, e quando queria comer frango era só torcer o pescoço do bicho, e mandá-lo para a panela. O "marvado" era eu. Como não tinha força para destroncar o pescoço do galo, torcia e ficava segurando, até ver o bicho com o olho arregalado como a dizer. Chega, pô! Sem contar às frutas que também tínhamos em casa. Era difícil uma casa que não tivesse seu pé de ameixa, goiaba, mamão e uva. Só não vi pé de banana e laranja em quintal algum. Depois que Totó mudou seu curral para um pouco mais longe, a gente não mais ia buscar o leite. Era ele quem trazia em casa, geralmente entre 20 e 21 horas. Eu era escalado para ferver. Era difícil o dia que não deixava o leite cair para fora da leiteira. Cabeçudo, deixou cair de novo? Pá… Uma tapa nas fuças, logo vinha. Como não tinha luz em casa, Totó era quem dava a noticia dos resultados do futebol aos domingos. Eu queria saber de prima como tinha sido o resultado do jogo do Palmeiras. Mas um dia ele já foi dizendo logo de cara o resultado do jogo do Corinthians, era 25 de Novembro de 1951. Mario, o Corinthians apanhou. E eu exaltando de alegria, pulei.
– VIVAAA. Quanto foi o jogo?
– 7 x 3 para a Portuguesa de Desportos, fora o baile. O Julinho marcou 4 gols. O Pinga 2 e o Nininho, marcaram o resto. Foi tanta alegria que até me esqueci de perguntar o resultado do jogo do Palmeiras. Na verdade nem sei se o Palmeiras tinha jogado aquele dia, tamanha era a alegria de ver os "maloqueiros" perder. No ano seguinte ele veio me dar o resultado do jogo do Corinthians e Palmeiras. Foi também em novembro de 1952, 6 a 4 para o Corinthians. Vocês não vão querer também saber quem marcou os gols do Corinthians né. Isso também já é demais.