Os clubes da várzea de São Paulo

Os clubes de futebol de várzea em São Paulo, em sua grande maioria, são muito pobres. Sobrevivem da paixão de seus colaboradores que contribuem com o pouco que podem – o que, geralmente, faz falta no orçamento doméstico.

O campo é um terreno baldio cujo dono, ou não se sabe quem é, ou nunca cobrou nada pela utilização do mesmo. A sede, quando não é o bar da esquina, é uma pequena casa, onde os quartos foram transformados em vestiários e a sala, no salão de jogos, onde as mesas de bilhar e totó ajudam na renda.

O mais importante na sede é o bar, onde é vendido pinga, cerveja e um ou outro tira gosto (carne de segunda cozida, batatinha no vinagrete e o insubstituível ovo cozido colorido), além da sala dos troféus, onde a diretoria exibe com orgulho as marcas de suas conquistas.

Os banheiros, normalmente muito sujos, somente são utilizados em caso de extrema urgência. Para tomar banho existe um cano por onde escorre uma tênue ducha de água fria, que cai sobre um velho gradil de ripas, onde recomendo pisar sempre de chinelos.

Toda sede possui um lugar de segurança, o único local trancado a chave: a secretaria, onde são guardados os fardamentos, a rede, a bola, bomba e bico. É lá na secretaria que fica, em meio a toda bagunça, a mesa e a cadeira do presidente. Sim, do presidente, pois todo clube tem um. Normalmente o presidente é um dos fundadores do clube, ou um torcedor daqueles fanáticos e abnegado, pois, em todos os casos que conheci, estes presidentes não ganhavam nada; ao contrário, cobriam o buraco do orçamento no final do mês e acabavam indo a falência pessoal por amor ao clube.

Dos presidentes do Falcão do Morro, um ficou marcado em minha lembrança e provavelmente na de todos os garotos do morro e de todos os jogadores que um dia passaram pelo clube: o Zulu. Zulu é um negro de mais de um metro e noventa de altura, porém aparentava ser ainda mais alto em função do topete que usava em seu pixaim, que tinha mais de um palmo acima da testa.

Ele era pedreiro, sujeito simples e calmo, e não me recordo de tê-lo visto envolvido em qualquer briga ou encrenca. Estava sempre mascando um talo de semente de capim, e não largava em momento algum uma vara fina e comprida, com a qual punha a molecada para correr. Não era político e não tinha dinheiro, apenas era respeitado por todos e passava os momentos de folga trabalhando na sede para mantê-la em pé.

Zulu não podia ver a gente ficar a toa no campo e lá vinha, dando um ou outro afazer. A mim ele sempre dava a tarefa de ir ao açougue do Seu Joaquim pedir pedaços de sebo para ensebar as bolas; isto mesmo, ensebar as bolas. As bolas não eram feitas com materiais impermeáveis como hoje em dia, e se desgastavam muito rapidamente, pois os campos eram de terra batida. Assim sendo, utilizava-se a técnica de derreter o sebo de vaca em uma fogueira improvisada no quintal da sede e, com o sebo amolecido, o mesmo era esfregado no couro da bola e na costura para protegê-la e impermeabilizá-la. Eu executava esta tarefa com orgulho, pois após terminar de ensebar todas as bolas, o Zulu emprestava uma, sempre a mais velha, para nós fazermos uma pelada no campo.

Zulu foi o presidente por muitos anos, provavelmente por mais de vinte, e além de conduzir o time fundou a Escola de Samba Falcão do Morro, que chegou ao segundo grupo das escolas da Liga de São Paulo. Nunca casou, pois seu grande amor era o Falcão do Morro. Também não deu bandeira, mas dizem que lá no morro muitos moleques nasceram com topete de cabelo pixaim e mascando um talo de capim.

O presidente atual do Falcão é o Cobrinha (Jorge Maltoni), filho do Seu Gabriel (primeiro motorista de táxi da zona leste) e da Dona Izabel. Irmão de muitos irmãos, quase um time de futebol; dentre eles, vários foram profissionais, como o Mauro (Palmeiras), Miguel (Corinthians, Portuguesa) e Lito (São Paulo).

Após a era Zulu, Cobrinha assumiu o clube e posso afirmar que o Falcão existe até hoje por pura abnegação do Cobra, que dentro de seu corpo de um metro e oitenta, curvo e com apenas cinqüenta quilos, mais parece um ponto de interrogação teimando em manter o time e o nome do Falcão do Morro vivos.

Normalmente, os clubes da várzea possuem um tesoureiro para controlar as finanças, cujo balancete é muito simples: de um lado, a entrada do dinheiro que é obtido por meio do recebimento das mensalidades dos jogadores, lucro no bar e, eventualmente, de um bingo ou rifa que são feitos para completar o que falta para pagar as despesas. As despesas, basicamente, são o aluguel da sede, lavagem do fardamento, compra de material esportivo, vantagem a ser paga ao time visitante e prestação do fardamento.

Um ou outro jogador ou simpatizante contribui com um pouco a mais, porém vários dos jogadores, principalmente os craques do time principal, não pagam recibo.

Embora não seja o foco deste texto, devo fazer justiça aos times de fábricas que foram um marco importante na várzea e que, por suas condições e estrutura, patrocinados pelos grêmios ou clubes dos funcionários das empresas, contavam com recursos financeiros e até mesmo pagavam jogadores para jogar e não para trabalhar.

Em Itaquera tivemos dois dos mais brilhantes times de empresas da várzea de São Paulo, que foram o Montepino (da indústria do mesmo nome que fabrica, até hoje, ferros para construção civil) e o Esporte Clube NIFE (indústria de baterias e acumuladores NIFE do Brasil, uma das grandes multinacionais do ramo).

O Montepino brilhou até meado dos anos 70, quando foi um dos times a permanecer mais tempo invicto no torneio Desafio ao Galo, que foi um dos principais torneios de futebol de várzea de nossa cidade.

A NIFE possuía o único campo gramado e cercado da região, e foi lá que tiveram início os grandes torneios de Itaquera, onde pude ver o meu Falcão do Morro ser campeão pela primeira vez em 1972.

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