Os carrinhos de rolimã

Aparecia um bando de moleque não se sabia de onde, cada qual com um carrinho de rolimã na mão para as grandes disputas na descida íngreme da Rua Manoel Antonio de Freitas, no bairro do Jardim São Luiz, região de Santo Amaro, que à época nem nome tinha e era conhecida como Rua 24. 
 
Além de um declive bom para pista de corrida ela tinha uma curva acentuada que empolgava as disputas. Juntavam-se meia dúzia de meninos de cada vez para ver quem chegava primeiro em um determinado ponto marcado, com direito a “juiz de prova”, que era o arbitro, e dava o veredito final. Às vezes, a disputa era tão acirrada que os competidores chegavam ao mesmo tempo e a discussão era inevitável e cada grupo assumia um partido e o bate-boca corria solto, até a decisão chegar ao bom senso que os dois haviam ganhado para a etapa da prova final, pois em cada bateria saia um vencedor para o grande desfecho daquele dia.
 
Claro que cada carro tinha suas características, mas todos possuíam rolamentos que se conseguiam nas oficinas de veículos da redondeza e eram disputadíssimos, pois não eram fáceis de arranjar o trio de rolamentos para completar com uma no “volante”, claro que era dirigido com os pés e as duas traseiras, onde era também apoiado na tábua o traseiro do piloto.
 
A disputa acirrada levantava poeira que não se via nada à frente e às vezes a trombada era inevitável e rolava um para cada lado do morro. A coisa era tão maluca que nem freio havia e os calcanhares faziam a vez deste componente tão precioso para brecar nas emergências ou em último caso, dar de cara com o barranco! Por vezes a “máquina” e o “piloto” se arrebentavam por inteiro e acabava a brincadeira daquele dia, mas no dia seguinte apareciam os dois “novinhos em folha” como que um milagre, claro que o piloto todo remendado para mais uma grande competição de carrinhos de rolimãs, os quais eram comuns em várias ruas de terra batida em São Paulo.
 
Ficavam todos felizes, pois todos eram grandes pilotos e se consideravam vencedores!