Lembro do campo do Elite. Era bem ali onde hoje passa o viaduto da Estrada do Pêssego; ficava no coração de Itaquera, ao lado da linha do trem da Central do Brasil. No gol do fundo, passava o Rio Learde; no gol da frente, ficava o barrancão, meu local predileto para ver os jogos; e, na outra lateral, era o brejo, onde muitas bolas, principalmente as dos adversários, caíam e não mais retornavam para o jogo, sendo encontradas apenas quando os donos já haviam ido embora. Nos domingos, já bem cedo, o público elitiano vinha para assistir à partida do juvenil, depois o extra e, na parte da tarde, os mais saudosos assistiam as partidas do veterano.
Eu adorava ser gandula, principalmente no verão, e torcia para que a bola caísse no rio, pois, para mim, era uma glória mergulhar de sobre a ponte com outros garotos e sair com o troféu – que era a bola. E, se o Elite estivesse perdendo o jogo, isto era feito em tempo recorde; caso contrário, a briga entre os garotos para ver quem entregaria a bola era longa e irritava os adversários.
Foi ali no campo do Elite que meu amigo Cebolinha derrubou, com uma pedrada, o helicóptero do Bradesco que, diariamente, pousava no centro do campo para levar e buscar os malotes. Bem, esta é outra estória, que já contei em detalhes e encontra-se aqui no site com o título “O Menino e o Helicóptero”.
O campo era de terra vermelha, não havia um só pé de grama, era todo cercado com alambrado de caibros pintados da cor do time, vermelho e branco. Suas linhas, sempre bem marcadas com a cal, delimitavam o campo de jogo que era muito grande; penso eu, maior que as dimensões oficiais.
O Elite foi palco da maior batalha entre torcidas que já pude assistir, quando num jogo histórico contra o Santa Cruz de Guaianazes (time do Isidoro Matheus), que era o maior rival do Elite, o pau comeu solto: iniciou-se no campo de jogo, se espalhou pela torcida, durando mais de hora, correria para todo lado. Foi necessária a chegada do batalhão de choque da polícia para terminar a briga. Nenhum tiro, nenhuma facada, nenhum morto: naquela época também havia brigas em campo, mas eram decididas no braço e na chinela.
Eu nasci e fui criado no Morro do Falcão. Este nome é derivado do time do morro que é o Falcão do Morro Futebol Clube, em homenagem à Mendonça Falcão, Secretário de Esportes na época e que doou o primeiro fardamento para o clube quando de sua fundação.
O campo do Falcão fica exatamente no topo do morro, como se o cume fora cortado e o tampão retirado, para lá ser instalado o campo que sobrevive a mais tempo em Itaquera: está lá há mais de cinqüenta anos.
O campo é pequeno, pouco maior que os utilizados hoje em dia para a prática do futebol society, e suas laterais são delimitadas pelos vértices do morro. Não me recordo de ter visto, algum dia, linhas demarcando o campo, nem mesmo a área era marcada.
Antes de iniciar uma partida, o capitão da equipe do Falcão levava o juiz e o capitão do time adversário para as laterais do campo, e com a mão apontava dizendo que, quando a bola entrasse no mato, seria fora, e do outro lado, quando ela caísse no barranco, também estaria fora de jogo. O meio campo é mais ou menos ali, e a área, não tem; caso haja uma falta, nós contaremos as jardas do local da falta até o centro da trave e, se der menos que quinze jardas, será pênalti. Estas regras somente eram válidas e aceitas pelos jogadores quando favoreciam o Falcão; a favor do adversário, sempre dava para diminuir a área ou afastar a linha de fundo.
Atrás do gol de baixo (pois havia o gol de baixo e o gol de cima, embora o campo fosse plano), ficava um campinho onde a molecada jogava as peladas contra os moleques dos visitantes, durante o jogo principal. Confesso que, muitas vezes, o jogo no campinho era melhor que o jogo dos times dos adultos.
Como a grande maioria dos campos da várzea, o do Falcão também não tinha grama. Era e é coberto por uma camada fina de areia, com muitos pedregulhos, que funciona como uma lixa; cair é ralar na certa, e cada bola não dura mais que uma dúzia de partidas.
As traves já foram de eucalipto, de caibro e de ferro, foram arrancadas centenas de vezes. Já passaram uma rua no meio do campo, mas ele lá continua, no topo do morro, hoje cercado de pequenas casas e quintais abandonados. No mapa da cidade, aparece como uma praça onde consta a rua no meio; aos domingos, continua sendo o palco principal do espetáculo mais popular do nosso país, que é a partida de futebol de várzea.
Poderia utilizar muitas e muitas linhas para escrever sobre os campos da várzea de Itaquera, tais como o do Leão do Morro, do Itapemirim, Botafogo, Santana, Ferrolho, Palmeirinha, Líder, Bola Veloz, Urca, Carmozina, do Vila Brasil e outros. Porém, vou me restringir a mais um, que é o campo do Democrático.
Hoje, o campo já não existe, mas, durante muitos anos, eu podia vê-lo lá do Falcão do Morro. Ficava na baixada, perto do Rio Verde. Muitas vezes, assistia às partidas sem sair de casa; bastava subir no abacateiro, lá no último galho, de onde avistava todo o campo – menos o “córner” direito do gol de baixo, que ficava encoberto por um grande espinheiro do brejo.
O campo do Demo era um dos poucos gramados, grande, bonito, lindo de se ver e ótimo de se jogar nos dias de sol. Durante a época da chuva, era mais adequado para prática de pólo aquático. Virava um grande lago de lama, pois era literalmente um campo de várzea, na várzea do Rio Verde. Nas épocas de chuva, eu e a molecada íamos, durante a noite, caçar rã, com lampião de carbureto e fisga, nas valas de drenagem do campo, e muitas vezes nas poças que ficam no meio do gramado.
Atrás do gol da frente, passava a estrada de Itaquera, e era comum que bolas chutadas muito alto caíssem no asfalto da estrada, sendo apanhadas rapidamente pelos gandulas, pois não havia preocupação com carros, que raramente passavam por lá. Recordo bem o dia em que a bola caiu na carroceria de um caminhão, e o time todo saiu na estrada, gritando para o motorista parar, pois era a única bola em campo. Ele não parou, e foi necessário fazer uma vaquinha às pressas e enviar um garoto na loja do turco Camilo comprar uma bola barata, para o jogo ter seqüência.
Como mencionei, o tema é muito rico e poderíamos ficar aqui escrevendo dias e dias sem parar; para não monopolizar, vamos parar.
Marcos Falcon Contador de Estórias
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