Eram os idos de l961 ou 1962. Eu morava então no número 28 da Rua Tomé Portes, lá na Parada Inglesa. Bem perto da minha casa passava o trenzinho da Cantareira que ia até Guarulhos.
Minha mãe, assim como todas as mães daquele tempo, secava as roupas no varal das casas que, também naquele tempo tinham quintais, além de um gramado que era o quarador, onde as roupas, principalmente as claras, ficavam estendidas ao sol para quarar (até hoje não sei bem o que é isso).
De repente, não mais que de repente ouvia-se o apito do trem e a gritaria era geral "Olha o trem, o trem vem vindo!" Fazia-se então a balburdia. A mulherada saia correndo, e a criançada também, para recolher as roupas dos varais e dos quaradores, porque senão, aquelas brasinhas que saiam da chaminé da máquina do trem queimava e salpicava de buraquinhos as roupas estendidas. Depois que o trem passava elas voltavam para seus varais e quaradores.
Pois é… O trem passou e o tempo também, e com eles os anos da minha vida. Hoje, quanta saudade… Olho para trás e não vejo mais o trem, nem os varais e quaradores, muito menos o tempo em que andávamos pelas ruas, sem medo, Lembro que, nas noites quentes, as famílias sentavam nos portões das casas e ficavam papeando, contando causos e jogando conversa fora. Nas noites frias de junho, fazíamos fogueiras, assávamos pinhão, batata doce e milho verde, nas noites de Santo Antônio, São João e São Pedro.
Onde está você trenzinho? Onde estão vocês, varais e quaradores? Onde está aquela vida boa? Cadê o papo na calçada e as fogueiras de São João? Ficou tudo perdido nas voltas da vida, que a vida dá, e nas estrelinhas brilhantes das brasinhas do trem. Que minha lembrança teima e manter cintilando.
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