Odisséia sem Ilíada ou A volta pra casa, simplesmente

Quem conhece o bairro do Brás de fins do século XX e este início de século XXI sabe que este não é um bairro exatamente aprazível. Multidões de compradores misturam-se, sem perceber, à fina flor da malandragem e da bandidagem, batedores de carteira, cortadores de bolsas, trombadinhas e trombadões, falsos mendigos, falsos cegos, falsos aleijados, marreteiros (chamá-los de camelôs é até um insulto para a honrada classe da camelotagem!), prostitutas e prostitutos de tempo integral. À noite, então, o bairro fica ainda mais sinistro, melhor nem parar por ali para esperar o ônibus que vai te levar para casa que a "boca é quente", e você corre o risco de ser assaltado, ferido ou até morto.

No entanto, participei de uma espécie de aventura no mesmo bairro em 1954 ou 55, me fugiu a exatidão nesses 55 anos passados. Havia, e ainda há uma escola de música (Escola de Música Morumbi) no bairro da Previdência (onde moro até hoje) e a dona e professora nos presenteou com convites para um recital de formatura de alunos no Teatro Colombo, que ficava no Largo da Concórdia. Fomos todos, meu pai, minha mãe e eu, além de vizinhos com seus filhos e filhas, todos amigos. Lembro que dois grandes atores da época – Manoel Durães e Nino Nelo – apresentaram alguns "sketchs" cômicos antes do recital propriamente dito.

Bem, para encurtar a conversa, tudo terminou por volta de meia noite e não havia mais bondes para o centro. Meus pais e outros vizinhos conseguiram alguns táxis para voltar e nós, garotos de 13, 14 anos sobramos, pois não nos foi permitido exceder a lotação dos veículos. Os pais, então, na maior confiança, foram embora, orientando-nos para voltar a pé até a Praça Ramos de Azevedo e esperar que os bondes para Pinheiros voltassem a correr às 4 ou 4 e meia da manhã.

Como se diz hoje em dia, "nem esquentamos a cabeça", e, àquelas horas do início da madrugada, lá fomos nós pela Rua do Gazômetro em toda sua extensão, atravessamos o Parque Dom Pedro II (lindo, bem cuidado, pouco iluminado, cheio de árvores majestosas…), subimos a Gal. Carneiro, chegamos à Praça da Sé, Rua Direita, Viad. do Chá e o prédio da Light, finalmente, onde esperamos até os bondes voltarem a correr!

Em nosso périplo (périplo – chique, hein?) pelo centro da cidade, vez ou outra éramos parados por guardas civis: – Isso lá é hora de criança andar na rua? Seus pais estão sabendo? E toca a explicar e contar nosso drama. Um dos guardas queria até nos levar para a Central de Polícia, que ficava no Largo do Tesouro, onde ficaríamos até amanhecer, mas acabou convencido de que nós éramos "boa gente" e nos permitiu continuar.

Agora, sejam sinceros: vocês fariam essa travessia, nos dias de hoje, durante a madrugada? Nem pensar, né? Mas aqueles eram outros tempos, outros costumes, outro tipo de educação que os pais nos davam e recebíamos nas escolas.

Quer saber? Estou com 69 anos, quase 70, aposentado da área da saúde, velho, cansado, passei por dois infartos, tenho "stents" nas coronárias, sou freguês assíduo do Instituto do Coração, tenho cinco filhos e cinco netos, não tenho mais cabelos, uso próteses dentárias, só não uso bengala, e ainda não estou "mascando prego" nem batendo palmas com as mãos fechadas, como dizia o Charutinho, vivido por Adoniran Barbosa em "Histórias das Malocas” da Rádio Record, portanto, permitam-me sentir saudades e contar esta história; afinal de contas, aquela foi a primeira vez que varamos a noite fora de casa, nós, os grandes malandrinhos, eu e meus amigos, a maioria, infelizmente, já falecidos. Confesso que sinto muito a falta deles, mas, vez ou outra, eles me aparecem em sonhos e lá vamos nós bater uma bolinha em nosso campinho, ou vamos, de terno completo e gravata com nó inglês, a bailinhos em nosso onírico bairro, nós com 15, 16 anos novamente. Tristeza é acordar desses sonhos!

Outras noitadas vieram, mas essas são outras histórias. Eu, por enquanto, vou ficando aqui em cima da terra, não sei até quando… mas, estamos aí, para o que der e vier…!

Abraços paulistanos a todos os brasileiros daqui e de fora do país, inclusive.

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