Quando construíram o salão de festas no quintal de casa, também cobriram com uma laje a escada dos fundos, que saía para o quintal. Essa laje, que devia ter uns seis por três metros, um pouco abaixo das calhas do telhado, tornou-se para mim, nas noites frias de junho, o meu observatório junino.
Era de lá de cima que eu ficava vendo os balões, que teimavam em brilhar no céu. Levava binóculo, bolacha, agasalho e uma manta, porque era muito frio. Subia pelas grades da janela da cozinha. Durante o dia eu não ia, preferia ir durante a noite.
Procurava os balões, apagando ou apagados, que estivessem na direção de onde vinha o vento. Mas a diversão maior não era pegar os balões, era ver a variedade dos modelos imaginando aonde eles iriam cair. Era caixa, pião, almofada, charuto, santos dumont, mixirica…
Quando pegava algum, achava que eles eram mais bonitos antes de ficarem tão cheios de fuligem. Aqueles que passavam em cima da cabeça da gente, eu observava para ver se não queimavam, pois algumas vezes as mechas vinham queimando, caindo no nosso quintal.
Uma vez, uma caiu em frente ao nosso portão e tinha quase 1 metro de largura. Ficou queimando um tempão, com a mecha de pé. Era fácil contar quarenta balões no céu, no mesmo instante, todos indo para a mesma direção. Para ver muitos balões no céu, era quando acabava o jogo da Copa do Mundo. Se o Brasil ganhava, e o Brasil sempre ganhava, a gente contava bem mais de 200 balões no céu.
O pessoal fazia balões e colocava os resultados do jogo para dar sorte no jogo seguinte. Funcionou muito bem em 1958, 1962 e 1970. Depois, São Pedro não recebeu mais os recados ou ‘Seu Pedro’ cresceu.
Agora, existem balões tipo tubos pretos sem mecha, subindo com o calor do sol. Eu soltei um há dez anos e ficou nisso.
Acredito que não foram os balões que sumiram, o que sumiu foi a criança que existia em mim…