O Zé Mosquet

Este caso se passou no ano de 1964, e ficou gravado em minha memória. Tinha doze anos, éramos em quatro irmãos, eu era o mais velho. Tempo de muitas brincadeiras, traquinices de criança, época que marcou muito a minha vida, éramos pobres na acepção da palavra. Meu pai era policial e ganhava um salário muito baixo, mas nunca nos faltou o básico que era a alimentação, vestuário e a alegria de viver.

O que nos divertia eram as brincadeiras de rua que fazíamos todos os dias, pois era de graça (mãe da lata, pique, pular sela, esconde-esconde, brincadeira de mocinho e bandido etc.), não tínhamos brinquedos. Tudo isso em São Miguel Paulista, mais claramente Vila São Silvestre, Zona Leste de São Paulo, havia muito espaço para as brincadeiras, as ruas eram de terra, muitos terrenos sem construção, locais enormes que viraram loteamentos com muito mato e pastos. Naquela época muitas pessoas tinham cavalos que deixam amarrados pastando em diversos locais.

Televisão nem pensar, quem tinha era considerado rico na época, e era moda assistir televisão no vizinho, éramos chamados de “Televizinho”. Os filmes que estavam em moda naquela época era Bonanza, O último dos Moicanos, o Zorro, Fúria Negra, Lassie, Nacional Kid, etc. E espelhados em tais filmes toda molecada era vidrada por cavalos, e a principal brincadeira era de "mocinho e bandido", pegávamos um pau de vassoura, amarrávamos uma cordinha e corríamos simulando um cavalo.

Num destes dias alguém teve a "brilhante idéia", de invés de brincarmos com os cavalinhos de pau, então pensamos: -“porque não pegar alguns daqueles cavalos que estavam no pasto para brincar de mocinho e bandido”. Dito e feito arrumamos algumas cordinhas e lá fomos nós, escolhemos três cavalos que sempre estavam no local, improvisamos um arreio, montou dois em cada cavalo, e assim estamos nos realizando em nossa brincadeira de "mocinho e bandido", eu me sentia um verdadeiro personagem dos filmes que assistíamos.

E corre daqui, corre de lá e já estava entardecendo, quando de repente vimos um senhor vindo em nossa direção e gritando: – "Seus moleques, seus ladrões de cavalo eu vou pegar vocês". Ficamos com tanto medo e começamos a correr montados nos cavalos, daí o que até então era brincadeira em nossas mentes passou a ser realidade, quando um colega gritou: – "vamos escapar, o bandido está nos atacando". Imediatamente como se fosse da TV., vivíamos a cena de perseguição e fuga, correndo do dono dos cavalos, que para nós naquele momento era o "bandido", conseguimos escapar deixando os animais em outro local, com o maior medo é claro.

E ao mesmo tempo felizes porque em nossa mente vivemos uma aventura bem ao modo do que assistíamos na TV. Depois disto nunca mais catamos cavalos para andar. A sorte nossa é que o dono dos cavalos não nos reconheceu, pois se tivesse, com certeza iria contar para nossos pais, e levaríamos a maior surra, o segredo ficou entre nós. Passado mais ou menos dez anos eu estava em um bar jogando sinuca, quando lá entrou o Sr. Zé Mosquet que era o dono dos cavalos que pegamos para andar, e eu o cumprimentei: – “Oi seu Zé como vai tudo bem?”, respondeu que sim. – “E os seus cavalos”? Perguntei, e ele disse: – “não os tenho mais, agora não tem mais lugar para deixá-los, não tem mais terrenos vazios, por isto os vendi há muito tempo”.

Falando sobre os cavalos perguntei se ele se lembrava do dia em que alguns moleques pegaram seus cavalos e saíram correndo quando o viram. Ele respondeu como sabe disso? Falei: -“pois é seu Zé um daqueles garotos era eu, levamos o maior susto quando o Sr. Apareceu, sabíamos que estávamos fazendo coisa errada e fugimos”. O seu Zé respondeu: -“Então era você!…” Rimos muito do acontecido, e não vou me esquecer nunca da brincadeira que para nós virou cena de um filme de Bang-bang.

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