Tinha eu sete anos de idade. Cursava o 1º ano no Grupo Escolar Mário de Andrade, no Brooklin, não sabia ler nem escrever. Eram meus primeiros dias de aulas.
Certo dia, a professora deu uma nota no meu caderno. Como não sabia ler, eu pensei que fosse uma nota 10 (números eu sabia). Estava ansioso para chegar em casa e mostrar ao meu pai. Fui para casa correndo, meu pai já estava na rua me esperando. Ao vê-lo, comecei a correr e gritar:
– Pai! Pai! Pai! Tirei nota 100! Tirei nota 100!
E fui logo lhe mostrando o caderno, pensando que ele ia me erguer nos braços e gritar “legal, legal!”. Mas, ao contrário: ao ler, ele disse:
– Isto não é nota "100", é apenas um visto!
Sei que meu pai não teve a intenção de me magoar, coitado, ele nem percebeu as lágrimas que caíram de meus olhos. Aquela cena me magoou tanto, mas tanto que durante muito tempo não consegui esquecer, queria mostrar ao meu pai, que eu era uma criança inteligente, queria me sentir importante. Eu esperava dele algo como “Parabéns, filho! Vamos mostrar para a sua mãe, seu irmão, seus tios… Eles vão ficar muito contentes!”.
Hoje suas palavras seriam outras, tenho certeza, mas naqueles tempos a educação era diferente. Lógico que não guardo nenhuma mágoa e nem rancor de meu pai, muito ao contrário.
Da maneira como estava escrito o “visto” parecia uma nota "100". A minha primeira professora, Maria Aparecida Vilhegas, que nunca a esqueço, tinha letras como as de um médico, por isso, o visto parecia 100.
Hoje, passado quase 60 anos, às vezes fico pensando: “Será que algum dia magoei ou deixei alguma marca de sentimento em meu filho e eu nunca percebi?”. Se por acaso isto ocorreu, ele nunca mencionou. Melhor assim!
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