O vendedor de sonhos

Anos 50. Era costume a moçada dos 16, 18 anos reunir-se na esquina das Ruas Cinco de Julho e Capichanã, Vila Nair, Sacomã. O pessoal ia chegando após o "jantar" e ia se sentando no pequeno barranco, que seria a tal sarjeta. As conversas iam saindo naturalmente… Cada um contando as suas novidades, idéias, planos, resultados do campeonato paulista, coisas de rapaziada que não tinha outros afazeres após o trabalho ou escola. Não havia TV para atrapalhar.<br><br>Como sempre, há um gozador mor. Naquela turminha era o "Grandão", rapaz alto, zagueiro do nosso time; tinha uma capacidade incrível de, quando alguém dava uma "bola fora", fazer um volume de anedotas a respeito, provocando gargalhadas de todo o pessoal. Nunca ouvi uma ofensa a quem quer que fosse a vítima. Mas aturá-lo não era fácil. <br><br>Uma das vítimas preferidas era o Armandão, um rapaz negro, muito negro, que tinha uma boa índole e às vezes até, de propósito, soltava alguma fanfarronice; e quando o pessoal ria, ele sorria, mostrando uma fileira de dentes brancos, de causar inveja. Nunca se alterava com as gozações que o Grandão e outros faziam. No máximo uma risada "surda", como que dizendo: objetivo atingido!<br><br>Havia no bairro um senhor, que chamávamos de "Alemão", e que vendia sonhos – aquele bolinho recheado de creme. Era um senhor alto, forte, com bochechas avermelhadas e que apregoava os sabores de seus confeitos, sempre vestindo um jaleco e uma touca brancos. A touca era uma peça que chamávamos de "bibi", não sei o porquê. Um cesto de vime, onde carregava a mercadoria. Tinha uma freguesia cativa.<br><br>Certo dia, ao invés do alemão, o vendedor de sonhos era o Armandão que, procurando uma forma de trabalho, conseguiu o emprego para atender a freguesia de nosso bairro. Segurando o cesto de vime, vestindo o jaleco branco e o tal do “bibi”, mais evidenciava a cor de sua pele. Sempre sorrindo ia fazendo o seu trabalho, calmamente, com passos gingados.<br><br>De repente, uma escorregadela, o cesto voando, alguns sonhos caindo na terra empoeirada e o Armandão ia recolhendo, limpando-os carinhosamente e aproveitando o que podia. Cena que alguns presenciaram e obviamente seria motivo de piadas ao anoitecer. O Grandão, informado do caso, provavelmente faria daquela "tragédia" motivo para piadas e comentários. <br><br>O pessoal ia chegando, os assuntos eram os mais diversos e o Armandão chegou. Também o Grandão chegou. Os minutos se passavam e nada de se tocar no assunto. Ninguém arriscava. De repente, o Armandão chegou até o Grandão e, irado, disse: "começa logo, senão eu brigo".<br>Gargalhada geral. Não houve briga, nem gozações…..<br>