Durante a vida tem coisas que guardamos para sempre, outras insignificantes que se perdem no tempo e outras que ressurgem naturalmente, em um estalar de memória, motivadas por acontecimentos não planejados. Certo dia do ano de 2004, fui assistir a uma palestra na Escola Estadual Senador Paulo Egídio de Oliveira Carvalho, localizada na Vila Maria. Uma ex-escola modelo muito famosa no passado, que sucumbe, quase que moribunda, diante de um sistema educacional com problemas crônicos.
O evento aconteceu no anfiteatro da escola, muito bem idealizado na época em que foi construído, e que não fica atrás de muitos teatros profissionais. O palco do anfiteatro, como poucos, possui na parte inferior um reservatório para armazenar água cuja finalidade é a de melhorar a acústica do recinto. A sala de som, na entrada logo atrás da platéia, faz lembrar as salas onde funcionavam os projetores dos antigos cinemas.
Subindo a escada, que leva à porta de entrada ao lado esquerdo do anfiteatro, pude observar encostado num canto, um velho piano empoeirado. Naquele instante, retornei à época dos anos 80, quando então eu cursava o ensino colegial nesta escola, cujas vagas eram bastante concorridas. Recebia alunos de vários bairros da região. Direção competente, professores dedicados, ensino forte e alunos interessados eram suas marcas.
Anualmente acontecia o Festival de Música nesse anfiteatro. Um evento vibrante que atraia a participação maciça de jovens sonhadores. Participantes e espectadores viviam momentos únicos de euforia. Muito embora os primeiros prêmios sempre ficassem com os mesmos, uns dois ou três “bambambans” na arte da composição, a competição acontecia de maneira saudável. Após a entrega dos prêmios a confraternização era geral. Premiados e desclassificados desciam o morro até a Praça Santo Eduardo para comemorar no Bar dos Artistas ou na Pizzaria do Clélio. Tempos que não voltam mais. Quem viveu tudo aquilo pode entender o que digo.
Ah! Ia me esquecendo do velho piano. Instrumento nobre, motivo de inúmeros recitais de músicas clássicas que aconteciam na época… Instrumento popular, cujo som acompanhou arranjos de tantas músicas dos festivais… Instrumento sublime, cujas teclas foram acarinhadas pelas mãos do genial instrumentista Hermeto Paschoal, em uma apresentação magnífica naqueles tempos de luz… Instrumento que eu, male-male, também toquei naqueles tempos felizes…
Pois é, bateu uma tristeza quanto vi o estado deplorável que se encontrava o velho piano. Aproximei-me ao notar que a madeira externa, outrora exuberante, encontrava-se caindo aos pedaços. Ergui a tampa posterior para espiar a parte interna. O coração disparou sem compasso. Os martelinhos, peças que batem nas cordas para produzir o som, estavam completamente danificados. Tornaram-se comida de baratas.
O símbolo de uma época estava ali desprezado, arruinado, jogado às traças.
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