O velho Brooklin Novo

Meu tio Sebastião Simões, irmão de minha mãe, era um pé de boi. Professor de Educação Física, dava aulas em vários clubes e colégios, em diferentes pontos da cidade. No Tenis Clube, no Mackenzie, na Casa Verde. Com isso, juntou algum dinheiro, comprou um terreno na Rua Texas, Brooklin, e iniciou a construção de sua casa.

Era um terreno grande, 500m2, e o projeto, de autoria de um seu aluno, muito caprichado. Deu-lhe enormes despesas e preocupações, mas naqueles tempos as coisas eram bem mais fáceis.

A casa ficou pronta lá por 62, e ás vezes a visitávamos. Tinha de se pegar o ônibus no Anhangabaú, ou Praça das Bandeiras. Ele subia a Santo Amaro, e descia-se num grande laboratório que existia junto a Av. dos Eucaliptos. Quem souber o nome, por favor,conte.

Atravessava-se a Santo Amaro, pegava-se a Rua Cabo Verde, da qual hoje resta só um toco, e descia-se. Onde é hoje a Avenida Bandeirantes era a Avenida Traição, um matagal, com o córrego do mesmo nome no meio, ladeado por uma favela, que lhe acompanhava as águas.

Para chegar à Texas, tinha-se de cruzar o córrego, e a favela. Cortava-se por uma pinguela, e a favela, pacata, não assustava ninguém. Não me lembro de ver nenhum movimento ali, talvez uma discreta lavadeira cuidando de seus trapos.

A Rua Texas já tinha várias construções, e algumas eram suntuosas, com grandes portões e palmeiras. O Brooklin estava em ascenção. Certa vez passei ali pelos portões gradeados de Erasmo Carlos. Mas não sei mais em que rua era.

Incansável, meu tio ainda cultivava uma horta nos fundos. Chegamos a comer couve e pitangas apanhadas do pé.

Voltando de lá, vejo-me cruzando a Santo Amaro toda arborizada, mais além o muro de pedra de uma churrascaria, "a Muralha", creio. Toda essa tranquilidade acabou-se com o "progresso." A Av.Bandeirantes irrompeu, mudando tudo, poluindo com sua fumaça e barulho.
A Rua Texas, vizinha, passou a servir de alternativa nos imensos congestionamentos.

Apesar de até hoje não ser uma má rua, decaiu bastante de status. Meu tio aposentou-se e mudou para Piracicaba, há uns vinte anos. Não é mais vivo, mas a casa da Rua Texas sim, agora de muros altos e fechados, bastante modificada. A última vez que passei por lá, estava à venda. Não mais a conheço por dentro, mas ainda assim recomendo a quem interessar possa.