O Tio do Sorvete

Quem tem por volta de 35 anos e morou entre a Zona Sul e a Zona Oeste, como eu, não me deixa mentir.
Há uns 30, 25 anos atrás pelo menos, tinha um tiozinho que cruzava vários bairros dessas duas regiões vendendo sorvete numa carrocinha puxada a cavalo.
Ele parava na porta da minha escola, que era a EEPG Ludovina Credídio Peixoto, no horário estratégico da saída, e, com cara de poucos amigos, ficava só esperando a criançada correr, batendo ponto pra comprar sorvete. Custava coisa de centavos.
Me lembro só de dois sabores, acho que era limão e chocolate. Podia ser que limão para os meninos, chocolate para as meninas… O sorvete vinha na casquinha e era em formato espiral, tipo italiano de máquina.
Me espantei no dia em que vi, muitos anos depois, o tiozinho com a carroça perto do Largo da Batata, no tal horário estratégico. A pessoa que estava comigo de carro notou a figura, e compartilhamos a memória da presença do tiozinho na porta de nossas duas escolas, que eram em bairros diferentes.
Me perguntei: "como será que ele conseguia estar nos dois lugares, ao mesmo tempo ? ? ? "
E olha que o tiozinho não era simpático, nem nada. A carroça era simples, sem decoração, não tinha nome, mal tinha cor.
E o sorvete nem era tão bom assim. Acho que o importante na estória era o gesto – quase que de liberdade; a freqüência – quase que diária; e, principalmente, a extemporaneidade do cavalo e da carroça. Que já naquela época era uma excentricidade, imagine hoje…