O tempo que tudo transforma

A caótica Avenida Presidente Wilson foi, por um bom par de anos, meu endereço de trabalho (na verdade fazia um trabalho corporativo; para um grande grupo empresarial, mas ali era um dos focos principais).
O trânsito sempre intenso, as manobras de carretas e caminhões que tudo obstruíam, as cheias do Tamanduateí (rio que nasce em Mauá, na Grande São Paulo, em um lugar absurdamente bonito chamado Gruta Santa Luzia, mas que pouca gente conhece)… Tudo isso fazia parte da paisagem da avenida. Com o tempo, as indústrias foram se retirando, vencidas por tantas adversidades, e restaram velhos galpões deteriorados, invadidos por catadores de sucatas e, depois de devidamente saqueados por estes, transformando-se em moradias coletivas. A favela foi perigosamente se aproximando, tanto, que em alguns pontos da Avenida do Estado, reduziu o tamanho da pista.
Mas, voltando à Avenida Presidente Wilson, os baixios do viaduto, na ponte sobre o rio, eram ”muito visitados” à noite por consumidores, ali onde pelo carnaval, a escola de samba do bairro – muito pobre, por sinal – preparava (talvez ainda prepare, não sei) suas fantasias.
O tempo tudo transforma. O volume de água do rio que, justiça seja feita a outro rio, aumenta muito após receber as águas do Ribeirão dos Meninos, já não invade as ruas. O fura-fila trouxe um novo alento à região. Mas o indestrutível na velha Presidente Wilson é a presença do passado que a caracteriza como uma rua velha, que não pode ser modificada, pois se a transformarem no que ela não é ela se perderá para sempre, como deixa de existir tudo que perde a poesia, tudo que deixa de ser abstrato e, portanto, não habita mais as mentes sonhadoras que um dia a viram com olhos diferentes de ver, com olhares ávidos de sonhar.

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