Naquela terça-feira eu torcia verdadeiramente para que chovesse. Mas tinha que ser uma chuva torrencial, daquelas de dar medo, de ninguém querer sair de casa. Como em todas as terças daquele tempo. Ou que acontecesse alguma coisa que eu nem sabia o que. Uma tensão ia tomando conta do meu frágil coração, um incômodo incalculável e indefinido. As horas deveriam passar rápido e logo às 4h da tarde começaria o programa de rádio da Hebe Camargo.
Muitas vezes o Agnaldo Timóteo cantava:
“Se eu demoro
Mas aqui eu vou morrer
Isso é bom
Mas eu não vivo sem você…”
Essa hora seria o meu alívio. A minha avó ligaria o rádio da nossa então modernosa radiovitrola Telefunken, que ficava bem ali, no cantinho da sala, debaixo da janela e a Hebe teria o seu espaço garantido.
No nosso modesto sobrado do Cambuci, perto do largo, chegava sempre às terças, antes do programa do rádio, a minha professora de piano. Nada mais odioso que tocar música clássica sem saber o que era isso e sem ter a mínima ideia de quem seria Bach, Beethoven, Strauss… E ninguém me apresentou essas pessoas. O mais humilhante era solfejar. Eu nunca entendi para que servia aquilo. Eu ficava lá com a minha mãozinha balançando e falando que nem uma babaca: “do o o o, ré é é é, mi i i i”.
Eu jamais tinha ouvido uma sonata, uma ária e nem a extasiante "Vozes da Primavera". Só tardiamente conheci alguma coisa sobre e me apaixonei. Mas nos meus 11, 12 anos era impossível compreender a magnitude desses sábios musicistas. Tempos de Jovem Guarda e delirando pelo Roberto Carlos, Erasmo e Wanderleia e doida para ter um anel de brucutu, tinha eu que tocar Bach. E o pior: eu teria que gostar. E eis que chega do trabalho – em uma daquelas terças malditas – o meu pai. Engravatado como sempre, com o seu sapato de cromo alemão, pergunta categoricamente para a professora:
– Quando a Verinha vai tocar “Tico-tico no fubá”?
Resposta:
– É só comprar a peça.
Olhando em direção à minha mãe, veio a determinação:
– Célia, vá então amanhã até a Quintino Bocaiúva comprar a peça.
Eu não sabia, afinal, o que estariam conspirando, mas eu teria que tocar uma música que eu também – para variar – não sabia o que era. Só o tempo me mostrou a grandiosidade do chorinho de Zequinha de Abreu e me apaixonei por esse gênero musical tanto quanto pela Bossa-Nova. O chorinho foi considerado a primeira música popular urbana típica do Brasil, nascida no Rio em meados do século XIX. Tempos de desenvolvimento, das inovações. Tempos de um Brasil quase republicano, emigrante e que iria, aos poucos, tentando se livrar dos moldes escravistas. As elites, buscando seu espelho na Europa, símbolo de cultura, requinte, ciência e progresso.
O chorinho se apresentava nessa lógica de entusiasmo e dinamismo. Nos anos 20, impulsionado pelas gravadoras de discos e pelo advento do rádio, o “choro” se popularizou e marcou uma presença inconteste na história da música brasileira. Em 1917, quase final da Primeira Guerra, a orquestra de Zequinha de Abreu apresentou seu chorinho absolutamente inédito. Os casais dançavam tanto e pulavam com tamanha alegria que Zequinha chegou a comentar que aquelas pessoas até pareciam "Tico-tico no farelo". Nasceu dessa forma a sua mais famosa e brilhante composição.
O sucesso foi tão grande que acabou fazendo parte da trilha sonora de cinco filmes americanos, inclusive o "Escola de Sereias", que o meu pai assistira “trocentas” vezes no cine Comodoro. No final do século passado eu prometi a mim mesma: ainda vou tocar “Tico-tico no fubá” no teclado que ganhei do meu marido… Mas a dificuldade é tamanha que ainda não saí da primeira linha da partitura.