Naquele sábado de agosto, a dureza tinha se estabelecido naquela esquina do bairro do Brás. Tudo prenunciava dificuldade. Não havia festas de aniversários, os clubes com os bailes tradicionais estavam fechados, e quermesse de San Vito somente em setembro.
O nervosismo tomou conta da rapaziada: passar um sábado com dois pedaços de pizza do Bar Chic – mesmo que saborosa -, e um café, sem nada a fazer, seria loucura. Haviam esperado pelo sábado no decorrer de toda a semana, com ansiedade.
Migué, Cola, André Boca e Durval, os quatro amigos, de banho tomado, roupa passada, cabelos enormes e, no máximo, dez cruzeiros cada um no bolso da calça boca-de-sino, saíram à luta. Caçadores de mulheres indefesas, sem a caça e sem a caçada. Onde achar as inocentes presas?
Sábado perdido, na próxima segunda-feira reiniciar-se-ia o ritual do trabalho. Já se resignavam, quando, de estalo, Cola teve uma idéia:
— Na Vila Talarico tem um baileco; é aniversário da filha da mulher que serve café na firma. É de graça, só que precisamos ir de táxi, daqui não há condução.
— Quanto dá o táxi até lá? — perguntaram os restantes, em uníssono.
— Deve dar quarenta paus — respondeu de pronto Cola, como quem houvera pesquisado.
Na incerteza, os outros colocaram obstáculos para o programa, dizendo que seria arriscado ir de táxi. E se o dinheiro não fosse suficiente?
— Se não der, deixe comigo! — refutou Cola, ávido por conhecer a filha da copeira.
Somaram o montante de todos e resolveram ir, pois ninguém queria passar o sábado em branco. Quarenta cruzeiros foram a importância alcançada entre os quatro.
O táxi, um DKW amarelo, padronizado de frota, motor de dois tempos, saiu em busca do afastado lugar. André Boca, o mais falante de todos, o rei da xavecagem, sentou-se no banco ao lado do motorista, homem de idade avançada. Incumbiu-se de explicar o roteiro, dizendo-se mais afeito à linguagem dos velhos.
Idas, paradas, perguntas, estradas, vielas, retornos, e após duas horas chegaram ao local, já percebendo o som do toca-discos, sedentos de iniciar o bate-coxas. Ao olhar o valor da corrida no taxímetro, quarenta e seis cruzeiros, André Boca inquiriu o amigo:
— Ô Cola, deu quarenta e seis paus, como é que faz? Nós só temos quarenta, ô meu — disse, passando a responsabilidade ao amigo que antes a houvera assumido.
O companheiro, na maior tranqüilidade, de maneira fidalga e amável, se dirigiu ao taxista:
— Por gentileza, seu motorista, o senhor dê seis cruzeiros de marcha-à-ré!
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