O suicídio do presidente

Era mês de Agosto, de acordo com o dito popular, mês de desgosto. Naquele dia 24 pela manhã sai como de costume bem cedo para trabalhar, deixei minhas irmãs às 5h30 no trabalho e segui como de costume tentando encontrar passageiros para tocar o meu dia e assim fui percorrendo o roteiro de sempre. Como tinha o costume de ligar o rádio logo cedo, lembro que entrou uma notícia extraordinária que tinha a ver com o Presidente Getúlio Vargas. A princípio não dei muita atenção, pois naqueles dias ele vinha sofrendo muita pressão dos militares, imprensa e até a sociedade em si, para que renuncia-se.

Ele tinha sido envolvido, ou se envolveu, nunca foi realmente apurado com certeza, no dia 5 de agosto, em um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, em que acabou sendo baleado o Major da Aeronáutica, Rubens Vaz, que fazia o papel de segurança do político, e quando chegavam na entrada do edifício em que residia na Rua Toneleros foram atacados por pistoleiros, que parece, haviam sido mandados pelo chefe de segurança do Palácio presidencial Gregório Fortunato, e em seguida fugiram em um táxi que os esperava nas proximidades, mas na fuga alguém anotou a placa e por intermédio desse taxista chegaram ao Palácio do Catete e aos seguranças do presidente. O jornalista chegou a ser ferido em uma perna, mas o Major morreu não lembro se no local ou no hospital. Isso causou muita revolta nos militares, principalmente na Aeronáutica, e de maneira geral em todo o país.

Em seguida prestei mais atenção na notícia e fiquei chocado com o que dizia, pois dava como certa a morte do presidente em um aparente suicídio, que havia acontecido no dormitório presidencial no Palácio do Catete no início daquela manhã de Agosto.

Não preciso dizer quanta confusão dali por diante acabei presenciando na nossa cidade. Donde quer que passava, eram manifestações, às vezes a favor do já ex-presidente, às vezes contra. O povo quase que na sua maioria tinha muito respeito ao Presidente Getúlio, ele era muito estimado por todos. Embora todos aqueles anos de uma austera ditadura, donde se cometeram inúmeros crimes contra todas as instituições inclusive com severa censura à imprensa escrita e falada. Mas depois do contra golpe em 1945, foi eleito democraticamente o General Eurico Gaspar Dutra. E no ano de 1950 ele voltou triunfante pelo voto popular. Isso mostrava o quanto o povo o respeitava. E com toda essa popularidade seus eleitores não se conformavam com a notícia do suicídio. Eles achavam que os militares estavam forjando tudo aquilo e que tinham acionado o gatilho e plantado o revolver em sua mão configurando assim o suicídio.

Trabalhei 12h naquele dia bem difícil, pois o tráfego era intenso por todos os lados, e as pessoas revoltadas pelas ruas entravam em choque com a polícia militar. E sempre levando a pior, e a golpes de cassetete procuravam dissolver os manifestantes, e também pondo a cavalaria da força pública em cima deles.

Como meu dia começava às 5h da manhã, o meu pai vinha ao meu encontro no Largo do Ouvidor ás 5h da tarde e trabalhava por algumas horas no horário noturno. Dali eu ia caminhando até a Praça Clovis e apanhava qualquer bonde que descia a Rangel Pestana, que me deixava na esquina da Rua Caetano Pinto donde morava. Foi aí quando meu pai me advertiu para tomar cuidado na Praça da Sé que estava repleta de manifestantes. E assim fui caminhando pela Rua Benjamin Constant, e quando cheguei na esquina da Quintino Bocaiúva ao meu encontro vinha uma turma de manifestantes tentando se livrar da Polícia Militar que vinha ao seu alcance. Sem titubear entrei pelo corredor de um edifício e lá fiquei até as coisas voltassem à calmaria. Fiquei lá por uns 10 ou 15 minutos. Aí iria tentar cruzar a Praça da Sé em uma corrida, pois se tivesse sucesso, logo estaria fora de toda aquela confusão. Mas a coisa não estava fácil, pois a cavalaria militar espantava qualquer tentativa.

Do outro lado da Praça, bem em frente ao Edifício Santa Helena, um cavalo e o soldado tentavam espancar um transeunte que corria desesperado, se estatelaram na calçada, mas logo se levantaram sem maiores consequências, pelo menos a distância via o soldado acalmando o cavalo e tentando remontá-lo.

Eu estava bem na esquina da Praça e esperava pelo melhor momento para cruzar, sempre atento a qualquer investida, pois não estava a fim de servir de alvo daqueles cassetetes de borracha. No meio da Praça bem na direção paralela ao Santa Helena, existiam alguns pontos de ônibus que iam a diversos bairros, mas lembro que naquele exato momento estacionava o Aclimação 17 e um sujeito com uma pasta na mão, que talvez como eu tentava sair daquela confusão, correu para tentar entrar no mesmo e já quando estava agarrando o suporte ao lado da porta para entrar, não conseguiu, pois o motorista a fechou e ele agarrado no mesmo se arrastando, quando um dos soldados da cavalaria acertou covardemente o homem na cabeça e pude ver aquela cena horrível, pois o homem com a cabeça arrebentada e sangrando caiu na ilha que havia entre os pontos dos ônibus.

O problema era que eles agrediam os que protestavam, mas também as pessoas que acidentalmente se viam no meio daquela confusão, como esse senhor atingido, que como eu, depois de um dia de trabalho, procurava uma saída daquele ambiente. Aquele motorista bem que poderia ter aberto a porta do coletivo para ele. E lá ficou jogado no chão sem nenhum atendimento.

Aí em seguida percebo um dos cavalos vindo em minha direção. Sem pestanejar voltei a correr pela Rua Benjamim Constant e cheguei a ouvir o zumbido do cassetete na minha cabeça. Quase que ele me acerta, mas para minha sorte me enfiei no saguão de um pequeno prédio, e me livrei da perseguição momentaneamente, pois se sai daquele ambiente, aí estaria exposto novamente. Então em seguida procurei evitar o caminho mais curto para mim que era a Praça da Sé. E fui caminhando com cuidado pela Rua Quintino Bocaiúva, até a Rua da Quitanda desci em direção da Ladeira General Carneiro, atravessei o Parque D. Pedro em direção à Rua do Gasômetro e acabei chegando em casa no Braz sem ferimentos, são e salvo.

A comoção ainda continuou por algum tempo e já depois do enterro em San Borja e da missa de sétimo dia, o povo foi aceitando a morte dele como suicídio, o que realmente ocorreu. O Vice Presidente que era o Dr. Café Filho, já no dia 24 foi empossado e ficou por pouco mais de um ano já quase no fim do mandato. Mas parece que teve algum problema cardíaco e no lugar dele foi empossado o Deputado Carlos Luz, que era o presidente do Congresso, mas também por imposição dos militares só ficou três dias no poder, e em seu lugar ficou o Senador Nereu Ramos, que depois de pouco mais de um ano foi sucedido pelo novo Presidente eleito Juscelino Kubitschek. Sempre com o respaldo do General Lott que era seu cunhado, pois havia um grupo da oposição que tentava bloquear a posse do Juscelino.

Essa foi mais uma página da política brasileira que não deixa boas lembranças infelizmente. Pois naquela época sempre tinha alguém na espreita para dar um golpe antidemocrático.