Por muitos anos de minha vida usei os trens de subúrbios da Central do Brasil, mas mesmo antes disso já os conhecia de longa data, e explico por quê.
Como minha família morava bem próxima da estação de trens denominada Estação Engenheiro Trindade, ali pertinho da Penha, sempre que precisávamos sair para algum lugar a preferência recaía sobre os trens de subúrbio da Central.
Me recordo que Engenheiro Trindade, muito mais que uma simples estação, tinha um enorme pátio de manobras e vivia entupido de trens de carga. Muitas vezes éramos obrigados a passar por baixo dos engates das composições para poder chegar até a plataforma.
Já por volta de 1954 eu já levantava cedo e ia trabalhar com meu pai. As máquinas que puxavam os vagões ainda eram movidas a lenha, a famosa Maria Fumaça, e seus vagões não eram projetados para levar passageiros em pé. Como na época visava-se o conforto de quem viajava sentado, o espaço entre os dois assentos era enorme, e ainda tinha-se a opção de rebater o encosto para que, se interessasse aos passageiros, ficassem frente a frente. Imaginem a bagunça que era quando os vagões ficavam superlotados, vi muita gente preferir ficar em pé e abandonar o assento.
Me recordo que algumas vezes viajei em vagões de carga que trafegavam juntos com os de passageiros e ficavam com as portas abertas.
Certa vez, voltando para casa fora do horário de pico, estava praticamente sozinho em um vagão e comecei a olhar detalhadamente sua construção. Quando olhei para uma das frestas que havia nos encaixes da madeira de um dos assentos, percebi que havia algo diferente e reluzente entre elas. Peguei meu cortador de unhas e, com a ponta da lixa metálica que havia nele, enfiei na fresta. Para minha surpresa começaram a saltar várias e várias pulgas que estavam ali quietinhas. Imaginem que porcaria.
Porém, apesar do desconforto e a falta de higiene, havia uma vantagem: a grande maioria dos passageiros viajava de graça porque as estações não eram fechadas, e entrava-se por todos os lados, nem os fiscais furadores de bilhetes apareciam para conferir quem pagava ou não.
Mas essa situação não durou muito tempo. Em poucos anos chegaram as litorinas movidas a diesel, e em seguida os trens elétricos. As litorinas ainda puxaram por algum tempo os vagões de madeira, mas os elétricos já chegaram com vagões de aço, parecidos com os do metrô, priorizando o espaço para quem viajava em pé, e não mudaram muito de lá para cá.
Em minhas viagens nesses trens passei por vários momentos perigosos e outros muito interessantes e inesquecíveis. O melhor deles foi no ano de 1960, e eu estava com dezoito anos de idade. Entrei no trem empurrado pelos outros passageiros que também subiam e, quando pude parar, estava frente a frente com uma gatinha. Por uns instantes fomos nos ajeitando da melhor maneira possível e, de repente, a menina aproximou seu rosto e me beijou na boca no melhor estilo. Levei um choque, mas não me afastei. Coloquei minha mão em sua cintura e fomos até o Braz nos amassando. Foi a viagem mais rápida de minha vida. O mais incrível de tudo é que não trocamos uma única palavra, e ao descermos cada um foi para seu lado como dois estranhos.
Durante minha vida residi em vários bairros, porém todos na zona leste. Troquei o ramal "variante" pela linha "tronco" quando mudei para a Parada XV de Novembro no ano de 1973, era a minha primeira casa própria. Foi a época que eu mais utilizei os trens. Isso porque eu morava próximo da estação e o trem era a condução mais rápida para o centro. E foi nessa época que levei o maior susto dentro de um deles.
Para quem conhece sabe que, ao sair de Arthur Alvim em direção a Itaquera, existe uma grande descida entre curvas sinuosas. Pois bem, numa tarde, assim que a composição iniciou a descida, ouviu-se um grande estrondo, e a seguir o som de ar comprimido vazando. A velocidade do trem aumentou incrivelmente, e o vagão balançava de um lado para outro como jamais tinha visto. Segurei firmemente com as duas mãos em um dos canos de proteção e esperei pelo pior. Como não poderia ser diferente, alguma mulheres entraram em desespero e começaram a chorar e gritar. Foi o trajeto mais longo e demorado dentro de um trem em toda minha vida, mas felizmente chegamos a Itaquera sem problemas. O trem não seguiu viagem e tivemos que esperar pela composição que viria a seguir.
Nesses subúrbios fiz muitos amigos. Conheci mulheres sem dono, mas também conheci mulheres com muitos donos. Algumas tão fáceis que duraram apenas algumas horas, e outras muito difíceis que duraram mais que o necessário e o esperado.
Nesses trens aprendi a não me meter com a vida de ninguém que viajasse neles. Quantas vezes surpreendi casais fazendo coisas inimagináveis. Havia até pequenos grupos que tinham lugar marcado nos vagões onde se encontravam diariamente. Nesses lugares faziam o que bem entendiam e ninguém tinha acesso.
Ainda hoje fico pensando em todas as dificuldades, perigos e sofrimentos que passei nesses subúrbios e chego à conclusão de que mesmo assim foi muito melhor que perder meu tempo dentro de um automóvel parado numa Radial Leste ou Marginal.
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