Algumas imagens ficam marcadas como impressões digitais. Não sei por que razão elas chegam do nada, sem ser convidadas e vão embora. Destas, três estão relacionadas ao bairro do Brás.
Sábados, domingos e feriados ia para a casa dos "abuelos" na Rua Monsenhor de Andrade e nas férias eu era "esquecido" lá por semanas, e sem me queixar, achava ótimo.
No térreo da casa, havia uma sacaria onde eu pulava de uma pilha de sacos de cereais para outro e às vezes o tombo era de uma altura razoável, mas éramos de borracha naquela época. Já sonhei com isso umas duas ou três vezes e a sensação não é muito boa porque no sonho, a altura era muito maior, eu chegava a ficar flutuando no ar antes de cair.
Acordava angustiado, suando e com o coração acelerado. Não sei, já me falaram para procurar a resposta no livro do Sigmud Freud chamado "A interpretação dos sonhos", mas ainda não li.
Outra impressão é de quando eu estava sentado num banquinho na porta da loja que dava para a Rua Jairo Goes quando repentinamente uma mulher gorda, de olhos azuis e pele alva me abordou. Eu me assustei com o palavreado e o olhar penetrante dela, não entendi se ela pedia dinheiro ou informação, numa língua que eu nunca ouvi, não sei se era um dialeto ou o que, acho que diante da minha surpresa ela disse em português
– "Você é ainda criança, não entende italiano, não entendeu nada do que eu disse".
Só sei que a mulher era bonita, não muito velha mas assustadora, sem muitos dentes na boca, vestida com uma roupa maltrapilha o que me causou uma mistura de surpresa, pena e repulsa ao mesmo tempo, por não entender como uma mulher bonita poderia ficar naquele estado. Esse fato ficou carimbado na memória.
A última imagem é de quando nos dirigíamos pela Rua Piratininga numa Variant verde em direção à Rua da Mooca, eu meu pai e minha mãe, quando ao cruzarmos sob o viaduto Alcântara Machado, um DKW velho passou o farol vermelho, batemos e ele capotou, voou papel para tudo quanto é lado, o carro ficou de ponta cabeça, saiu de dentro um homem com uma arma na mão, puxou outro que demorou para sair com uma metralhadora, pararam um fusquinha táxi que ia passando, tiraram o motorista de dentro e foram embora. O motorista chamou a polícia, vieram dois caminhões com PM’s sentados de costas um para o outro, cercaram a rua e pegaram os panfletos dos "terroristas de esquerda". Após averiguação da ocorrência, fomos dispensados e seguimos nosso trajeto.
Se saiu nos jornais não posso dizer, mas esses acontecimentos não sei por que razão, me acompanham até a vida adulta, emergem do nada como se tivessem acontecido ontem, às vezes no meio do trânsito, em situações não correlacionadas. Conversei com várias pessoas que tem a mesma sensação. A mente humana é uma coisa fantástica.
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