O ano era 1924. O bairro, a Mooca. Os moradores, em sua grande maioria, imigrantes italianos; dentre eles, a minha família, composta de meus avós e seus filhos, todos pequenos.
Naquela manhã fria, em plena Revolução que acontecia em São Paulo, meus "nonos" foram acordados com barulho de bombas e correria pelas ruas do bairro.
A proximidade com a estação de trens piorava a situação, pois por ela também desembarcavam soldados que se misturavam à multidão aflita que tentava sair dali.
No desespero, recolheram o que podiam, juntaram as crianças e também foram à estação, de onde partiriam rumo a Campinas, para casa de parentes, até que a situação na cidade de acalmasse.
O tumulto na plataforma era grande e, ao conseguir embarcar todos no trem, que partiria em instantes, deram falta de um dos filhos, minha tia, então com quatro anos. Não conseguiram sair do trem para procurá-la e o trem partiu, com os gritos da "nona" e desespero de todos a bordo.
Parece coisa de filme, mas aconteceu… Algum tempo depois, um funcionário da companhia de trens apareceu naquele vagão, trazendo a menina pela mão, dizendo que uma pessoa na plataforma a reconheceu e deduziu que meu avô estivesse naquele trem com a família; sem pestanejar atirou-a pela janela para dentro de um dos vagões.
Uma família desesperada num vagão, uma criança chorando em outro… o funcionário os juntou e a viagem acabou bem.
Passado um mês, finda a revolução, o "nono" voltou para ver a situação da casa. Lá chegando, encontrou apenas uma parede de pé, pois a casa tinha sido bombardeada.
O desespero inicial se transformou em esperança ao perceber que nessa parede estava intacto o relógio da família, daqueles com ponteiros em algarismos romanos e badalo, como a dizer que era tempo de recomeçar, algo ainda estava inteiro. Seus ponteiros indicavam que ele havia parado por volta das 4h00, provavelmente quando a granada, que estava no chão, ao lado dessa parede, tinha sido ali detonada.
O reinício de suas vidas se deu no Ipiranga, e o relógio voltou a funcionar, sempre merecendo destaque na nova parede que lhe foi destinada.
Os personagens dessa história faleceram todos, mas o relógio, este está comigo, é destaque na parede de nossa casa, agora na zona leste da capital, funciona muito bem e, dependendo do dia, parece que nos conta essa história em cada badalada.
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