O primeiro Natal paulistano

Sábado, noite chuvosa, temperatura amena em São Paulo. Lanche frugal, sala de jantar, todos conversando. O tema era o Natal, cuja ceia é realizada em casa.

De repente, a netinha (cinco anos), exclama:
– Vô, conta a história do Natal de quando você era pequeno!

Silêncio. Apenas o leve e suave som da chuva caindo; fecho levemente as pálpebras e minha mente retroage à longínqua década dos anos cinquenta.

Recém-chegados a São Paulo, onde iríamos morar nos próximos anos, ficamos acomodados na casa da irmã de meu pai, aqui no bairro de Santo Amaro, onde passamos o primeiro Natal paulistano.

Na sala, uma pequena árvore de Natal com uns arranjos, destacando-se os Reis Magos e o menino Jesus na Manjedoura. Meus primos perguntando:
– O que vocês (irmãos) pediram para o Papai Noel?
Meu irmão:
– Pedi uma cartucheira com dois revólveres e o Cideme pediu um patinete.

Eles nos orientaram para deixarmos os sapatos debaixo da árvore Natalina que o Papai Noel deixaria os presentes lá. Papai Noel? Sim! Acreditávamos!

Na manhã do dia de Natal, fomos correndo à sala e não vimos os nossos presentes, mas dentro dos sapatos havia uma nota de quinhentos cruzeiros, uma para mim e outra para meu irmão.

– Pai. Veja! Papai Noel deixou dinheiro para nós ao invés dos presentes que pedimos.

Meu pai explicou que o Papai Noel não teve tempo de comprar e, por isso, deixou dinheiro para nós, o que daria para comprar um monte de brinquedos.

Se desiludidos ficamos, não me recordo; lembro-me que meu irmão ficou meio ressabiado, mas aceitamos e vimos que nossos primos ganharam o que pediram; o que, não me recordo, mas estavam todos felizes.

Nossas mães e avó, preparando o almoço de Natal e nós, no quintal brincando, e com as notas de cruzeiros na mão, sacudindo-as para exibir aos primos, e alegres, sonhando com os brinquedos que tal dinheiro nos propiciaria comprar.

Recordo-me que os guardamos numa pequena caixa de papelão junto com outros objetos de "valor" que tínhamos e sempre olhávamos para ver o valioso tesouro.

A alegria durou pouco, pois um dia, ao abrirmos a caixa de papelão e a revirarmos, vimos que as notas haviam desaparecido. Foi um reboliço e choradeira total; ninguém sabia e não dizia nada.

Meu pai, que estava tratando da aquisição do Empório – Casarão – para o qual iríamos mudar, chegou à noite e logo o abordamos informando do desaparecimento. Ele, pensativo ficou e com um ar bem indagativo, disse:
– Será que não entrou um ladrão e as roubou?

O ano terminou e logo para o Casarão mudamos, até que um belo dia meu pai confessou que havia pegado as notas, pois precisava ajudar a pagar a compra do Casarão, e para surpresa nossa, mandou-nos ir à sala e lá vimos: a cartucheira com dois revólveres de brinquedo e o patinete, cuja cor era azul. Foi uma das maiores alegrias de nossa infância.

Muitos anos depois, recordando o fato e com nossos pais já na morada eterna, lágrimas de saudades aos olhos afloraram.

Foi o Natal mais marcante e, talvez, o mais belo de nossa efêmera infância que há muito os ventos dos tempos já levaram…

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