Dezembro de 1999, um evento belíssimo e inesquecível: descida de papais noéis do prédio da Estação Julio Prestes, antiga Estação Sorocabana, ali no centro velho de São Paulo. Esta foi uma promoção da Secretaria de Estado da Cultura abrindo as festividades natalinas daquele ano.
Este evento contou com a presença de cerca de quinze acrobatas, dentre eles esta aqui que vos fala, trajando roupas do nosso velhinho de barba branca. A tarefa nossa, dos papais noéis, era descer pela fachada do prédio e inclusive da torre, em estilo rapel, técnica de descida de alpinismo, numa empolgante coreografia no ar.
Como descrever um momento indescritível?! Ver São Paulo do topo daquele patrimônio, sentindo a brisa morna de dezembro bater no rosto, ao som de uma orquestra composta só de crianças e adolescentes, tocando músicas natalinas. É como se o tempo parasse num momento de perfeita harmonia com o universo. Um verdadeiro sentimento de plenitude.
As luzes se acendem, a orquestra inicia o primeiro refrão de "Noite Feliz", o público se aproxima e nos posicionamos na beirada, no parapeito. De lá de cima consigo avistar a bela Estação da Luz e mais alguns prédios maltratados da redondeza, enfim os contrastes da nossa São Paulo. O espírito natalino invade o ambiente, crianças e adultos olhando pra cima exaltados já com a aparição dos papais noéis. E nós, lá de cima, ansiosos, acenando para o público, igualmente envolvidos pelo mesmo espírito, em completa comunhão de sentimento.
Logo a seguir a música "Eu pensei que todo mundo fosse filho de papai noel" envolve São Paulo e começamos a descida, meu coração bate forte, num compasso descompassado, e a emoção toma conta de mim, não consigo segurar a primeira lágrima que rola e lá vem a segunda e assim por diante. Aí me pergunto: "Papai noel chora??".
Dou uma pirueta. Minha São Paulo no lusco fusco é linda, com suas luzes cintilantes no contorno das edificações contra vermelho já esmaecido de mais um pôr do Sol. Agora ouço os primeiros acordes de "Anoiteceu", que mantém a todos num uníssono e fraterno sentimento. Continuo a descida, dou mais um giro coreografado. A magia é acentuada pela chuva de confetes prateados que jogávamos, os quais brilhavam ao encontro da iluminação dos canhões de luz, um encanto.
Adestes Fidelis é a música seguinte, e eu, entre mais piruetas e movimentos acrobáticos, agora observo a nossa querida São Paulo de um outro ângulo, de ponta cabeça, suspensa no ar numa liberdade incondicional, um privilégio sem par. E posso afirmar que São Paulo tem seu charme mesmo vista de cabeça pra baixo.
Conforme vou chegando mais próxima ao solo, a música Jingle Bells dá o tom e consigo definir rostos e expressões no meio da multidão. A emoção fica mais forte, quando se vê os rostinhos das crianças iluminados por sorrisos, com os braços para cima numa tentativa de alcançar os papais noéis. E assim que pisamos no chão, crianças de "todas as idades" vêm correndo em nossa direção pra receber abraços e balas, pois é o que trazíamos no nosso saco de presentes. Um a um foi abraçando, e pude perceber que apesar de ser eu uma figura feminina interpretando um personagem masculino, naquele momento, para aquelas crianças, eu era sim o papai noel. Elas acreditavam naquela fantasia que a nossa aparição proporcionou. Num dado momento, uma das crianças, uma menininha, veio até mim e disse: "Que bom que o Papai Noel "caiu do céu", lá em casa nem tem chaminé!!! Aliás, eu moro num barraco. Me dá um abraço".
Eu, abraçando aquela menininha e as lágrimas caindo, despercebidamente, embaixo da minha barba postiça, sem falar que a mesma já estava encharcada de tanto que me emocionei. Eu mesma tenho origem humilde, morávamos num quarto e cozinha, e apesar de termos uma pequenina árvore de Natal, não acreditava em papai noel. Entretanto, nas noites de Natal, eu procurava deixar a janela do quarto entreaberta, no caso de o papai noel aparecer e quiser deixar uns presentinhos debaixo da árvore.
É, sempre tive uma pontinha de esperança, o que pude ver nos olhos daquela menina, naquele momento. O olhar dela era só esperança.
A descida coreografada, vestida como um personagem tão significativo para o imaginário infantil, me deixou muitas saudades. Hoje o prédio da Estação Julio Prestes, este patrimônio vinculado a nossa identidade paulistana, tem um significado muito marcante pra mim. Este monumento foi testemunho e cúmplice de mais um momento importante e inesquecível da minha vida em São Paulo. Quando passo ali em frente, consigo ainda ouvir os acordes natalinos ecoando vindos do passado, olho para o prédio, dou um sorriso e uma piscadela, pois só eu e ele sabemos, um dia, eu também fui papai noel! Contudo, naquele evento, a presenteada fui eu, um presente de Deus.
Feliz Natal!
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