Quando estava cursando o 1º ano Colegial (atual Ensino Médio) no extinto Colégio Alfredo Puca, situado na época na Rua Beneficência Portuguesa, no centro da cidade, certa vez o professor da matéria de Português, ao término de uma aula, alertou os alunos que na aula seguinte haveria uma prova valendo nota para o mês em curso, que estava por terminar.
Ao entrar na classe na data prevista, o professor logo foi dizendo:
“- Conforme havia dito na aula anterior, vamos fazer uma provinha valendo para a nota do mês".
Continuando, diz:
“- Hoje, vamos inovar. A prova consiste em escrever uma pequena história em torno de 10 ou 15 linhas de assunto livre, o que vier na imaginação".
Em seguida, distribui a cada um uma folha de papel timbrado onde constavam dados para a qualificação dos alunos, orientando ainda para fazerem primeiro um rascunho em um caderno e depois de pronto passar para a folha distribuída. Para mim, e tenho certeza que para todos, foi uma surpresa, pois esperávamos uma prova sobre gramática.
Com um caderno sobre a carteira, uma caneta na mão direita e a mão esquerda na cabeça, comecei a pensar. Pensava, pensava, pensava e nada, nenhuma lembrança. Passaram-se 5, 10, 15 minutos e nenhuma ideia surgia. Comecei a ficar preocupado. Olhava para um lado e via colegas escrevendo. Olhava para outro, também colegas escrevendo. Nessa altura imaginava que teria de entregar a prova em branco. Talvez próximo de 20 minutos buscando motivação, comecei a dirigir meus pensamentos para o período da infância. Lembrei com saudades dos momentos onde brincava feliz com meus coleguinhas da época na rua onde morava ainda sem asfalto e de chão batido, que propiciava várias brincadeiras infantis como pião, malha, bolinhas, entre outras.
Quando me lembrei desse período, subitamente surgiu uma inspiração poética. Peguei o caderno e comecei escrever e em cerca de 15 minutos saiu o que segue:
Meus oito anos
Como foi bela essa idade
Que me traz tanta saudade
Quando ponho-me a pensar
Pensando bem devagar
Naquelas brincadeirinhas
Malha, pião, bolinhas
E tantas outras coisinhas
Que nem dá para relatar
Saudades, muitas saudades
Eu sinto daquela idade
Que nunca mais vai voltar.
Surpreso, pois instantes antes havia pensado em entregar a prova em branco e depois de transferir "Meus oito anos" para a respectiva folha, fui o 3º aluno a entregar a prova, um tanto ressabiado por não imaginar qual seria a interpretação do professor ao ler a pequena poesia.
Na aula seguinte, o professor inicia fazendo pequenos comentários sobre as provas. Esclarece que a maioria esteve entre regular e bom, com notas de 6 e 7, respectivamente. Um pequeno grupo de alunos, apresentando compreensíveis dificuldades, não conseguiu dar sentido às poucas linhas que escreveram, mas pelo inusitado da prova todos ficaram com a nota 5. Apenas um obteve a nota maior: 8. Foi o aluno Roberto Capuano que escreveu uma pequena poesia.
Diante desse surpreendente resultado, ficou marcado em minha mente o irrefutável "poder da inspiração" que pode ocorrer com qualquer pessoa e em qualquer situação da vida.