O Natal, para mim, apesar de saber ser uma festa religiosa, é mais uma data marcante no íntimo das recordações pessoais… É marca na memória de minha infância, o Tião…
Tião era um negro, alto e forte, ajudante de caminhão, que morava em um porão em um daqueles cortiços do Ipiranga, dos anos 50. Era sozinho e morava num cubículo, onde o teto lhe obrigava andar curvado para não bater a testa lambida.
O que mais chamava atenção era sua postura: Sempre alegre, sorridente mostrando apenas os dois caninos brancos, que lhe emolduravam o sorriso. Nunca o vi alterado, ficava falante, e cantarolava quando tomava algumas… Era um dos fregueses de minha mãe, que costurava roupas para ajudar no parco orçamento de pedreiro de meu pai.
E lá, no almoço de Natal, nada de algo mais sofisticado, a mãe preparava um prato e recomendava “leva ao Tião”… Não eram sobras (Madre Tereza de Calcutá definiu muito bem) era divisão do pouco.
Casou-se com uma das filhas do Seu Benedito da Cohab e teve uma porção de filhos…. Muitos anos depois, passando pelo "pedaço", vi um jovem batendo bola no meio da mesma rua. Parei e perguntei:
– “Você é filho do Tião, não é?”
A resposta machucou:
– “Sim, o Tião era meu pai…”
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