O meu querido violino Stradivarius

Eu era um menino de uns 10 anos que já fazia os serviços de pagamentos, recebimentos, compras de aviamentos, entregas e transportes de vestes e roupas ortopédicas e íntimas ou sociais, confeccionadas por minha tia Esther ou minha avó Lenia.<br><br>Nas minhas andanças pela nossa amada São Paulo, passando pela esquina da Rua Quintino Bocaiúva com a Rua José Bonifácio, vi exposto na vitrine da Casa Vitale a minha paixão em instrumento musical: um lindo e mimoso violino cujo preço lembro-me até hoje: era 12.000,00 (doze mil) réis.<br><br>Meu sonho imediatamente tomou vulto. Vou à primeira oportunidade falar com meu pai e dizer-lhe sobre o meu desejo de comprar aquele violino e aprender tocá-lo.<br><br>Assim fiz, como vocês se lembram, eu era criado pelos meus avôs maternos e via meus pais só quando eles me visitavam nos finais de semana.<br><br>Naquele primeiro domingo, assim que tive oportunidade, falei ao meu pai sobre o violino. Que grande decepção eu tive como resposta. Ela foi negativa, com a justificativa de que músico era profissão de vagabundo. Ele achava que eu deveria estudar medicina, por isso, também, não me deixou ir para a aeronáutica, que era outro anseio meu.<br><br>Então, diante de tantas negativas, conclui que as decisões agora deveriam ser as de um filho desobediente: fui trabalhar na Volkswagen e continuei meus estudos, me encaminhando para o direito.<br><br>A aeronáutica ficou esquecida e a música do instrumento, minha paixão, passou a ser só ouvida sempre que tenho oportunidade, pois devido ao trabalho e ao estudo, não tive tempo de aprender a solfejar.<br><br>Assim, o tempo passou… Quando novamente tive tempo e condições para voltar ao conservatório musical, para entregar-me ao aprendizado do manejo e arte do violino, pois uma cópia muito antiga de um Stradivarius estava em minhas mãos, lindo, velhinho, pequenino, produzindo belíssimas e suaves notas quando pelo seu arco com crinas originais era executado, aconteceu-me o pior: fui acometido por um problema neurológico, esclerose múltipla, que me tirou muitos movimentos e limitou-me em outros, fazendo-me paraplégico e impedindo-me de qualquer movimento sincronizado com as mãos.<br><br>Enquanto escrevo esta dissertação, estou ouvindo a Valsa da Sinfonia n.o 1 de Peter Iljitsch TCHAIKOVSKY, deliciando-me, já que não posso tocar o meu violino, porém, posso ouvir do que ele é capaz.<br>Quando no Teatro Municipal desta nossa cidade ou na Sala São Paulo houver a apresentação de qualquer orquestra, conjunto de cordas ou apresentação de um violinista solista, jamais deve deixar de ser assistido, pois é um espetáculo lindo e maravilhoso, impar para os nossos ouvidos e olhos.<br><br>Pelas oportunidades que você dá aos seus filhos, você é muito amada, nossa mãe, nossa querida São Paulo.<br><br>E-mail: [email protected]