O menino franzino vivia no mundo da lua. Em casa, no grupo escolar, brincando na calçada ou em qualquer outro lugar, estava sempre distraído sonhando com seu mundinho de pequenas ilusões. Não desejava muito mais do que aquele bocadinho de felicidade que a infância lhe reservara. Jamais passara por sua cabeça de moleque que aquilo um dia findaria. A pequena cidade, pessoas afetuosas, ruas arborizadas, a referência na igreja matriz, manhãs claras, tardes de sol e as longas noites de mansidão. A vida caminhava sem pressa. Curtas viagens locais sempre levavam ao bem comum e a família era o bem maior que o menino possuía.
Certo dia uma notícia repentina invadiu seu espaço restrito para mudar os rumos da vidinha tranquila. A família se mudaria para a capital, São Paulo. Inicialmente a novidade causou-lhe tamanha euforia que não se ateve em pensar nas pequenas singularidades que até então faziam parte de seu cotidiano na pequenina São Sebastião da Grama. Os colegas de escola, a professora, a turma da rua, os primos, o cheiro de jabuticaba madura, as mãos lambuzadas com caldo de manga, o jatobá e a macaúba, os tachos de pamonha, a rosca dourada que a madrinha fazia como ninguém, os quitutes da mãe e das tias doceiras, as quermesses da festa do padroeiro, os cartuchos de doces, os arraiais das festas juninas, o papai-noel feito de caroço de manga, as missas dominicais, a fé barroca das procissões, as aulas de acordeão, a banda do coreto e o som nostálgico do clarinete do maestro, as botinas de couro de boi confeccionadas pelo velho sapateiro, as pescarias de lambari sobre a pinguela do ribeirão, os passeios de bicicleta pela estradinha de chão, as viagens de jardineira até a cidade vizinha, o aceno do tio montado em seu burrico quando à tardezinha retornava da roça, as rinhas de briga de galo na companhia dos tios, a cocheira no fundo do armazém da família, o cachorro salsicha que vira e meche fugia, e, sobretudo, a passarinhada que o menino cuidava com carinho…
O menino era apegado demais aos passarinhos. Até então, ainda não havia provado o sentimento de tristeza da perda. Na mudança não pode levar consigo a passarinhada toda. Alguém lhe disse que poderia escolher alguns entre tantos. E assim ele escolheu dois canarinhos da terra, um amarelinho e outro filhote ainda pardinho, um bigodinho, um coleirinha e um tico-tico fogo.
No início, a adaptação foi difícil. A escola da cidade grande era diferente do grupo escolar da cidade pequena. Os primeiros colegas estranharam o tipinho caipira. Teve de engolir apelidos zombeteiros e segurar o medo que uma freira durona do Colégio Sion, “a sargento” da escola, lhe transmitia. Procurava não se alterar. Provocações não o fariam perder o trem. Um dia ele ainda compraria um bonde para depois revender aos distintos. Ia para a escola como quem não queria. Aguardava ansioso, a sirene tocar. O barulho da sirene soava como um grito de liberdade. Descia morro abaixo em direção ao paraíso do lar. Quando chegava a primeira coisa a fazer era cuidar dos passarinhos. Enquanto o prato de comida esfriava, limpava as gaiolas, enchia os cochos de água e de alpiste, lavava verduras frescas e cortava jiló. Depois, enquanto comia o prato quase frio, ficava observando aquelas belezas.
Com o tempo o bigodinho e o tico-tico fogo fugiram para a liberdade. Melhor assim. O coleirinha morreu de doente. Trocou com o tio um dos canarinhos da terra por um canarinho do reino e o outro canarinho acabou morrendo de velho. Com o desaparecimento dos passarinhos, o menino sentiu a dor da perda outra vez. O vínculo simbólico com a cidade pequena praticamente se desfez. Iniciou nova etapa de um destino que não escolheu. Tornou-se adulto e de vez em quando se deixa levar pelas reminiscências da infância. Tem certeza de que aqueles dias foram os mais sublimes de sua vida. Foram dias onde não existiam disputas e nem interesses por conquistas materiais ou por escaladas sociais. O que valia era vontade de viver, simplesmente viver por viver.
E-mail: [email protected]