Eu era um "molequinho" e achava que o mundo se resumia àquela casa, com aquelas pessoas e tudo isso em uma rua que era o meu universo. Claro, não poderia existir nada melhor que aquilo. Uma esquina no bairro do Bexiga, o fogão a lenha, o quarto de dormir no nível da rua por onde entrava o som de passos incógnitos e a fumaça da fogueira de São João acesa logo ali.
Eu era quieto. Assistia silencioso meu pai alimentar a gaiola do papagaio, saia orgulhoso de mãos dadas com minha mãe para aprender a ler no "Passalacqua" e quando sobrava um tempo… Aí sim, era pra valer. Descia a Rua São Vicente apenas alguns metros e pronto. Estava no pequeno e lindo "cortiço" onde morava meu "amigão" Duílio e sua mãe maravilhosa de quem não lembro o nome (pena! Mas ela mora no céu, tenho certeza).
O legal de tudo era que logo depois das brincadeiras, que tinham que ser rápidas para que eu pudesse voltar também rápido para casa, a mãe do Duílio trazia duas canecas de lata. Quentes, muito quentes e cheinhas de um café com leite que jamais poderei esquecer.
Um café com leite que tinha o sabor da amizade ingênua e dedicada do Duílio e a temperatura do coração de uma mulher como nunca conheci em toda minha já longa vida.
Voltava pra casa feliz e minha mãe nunca entendeu porque nesses dias eu jantava tão pouco.
E, subitamente, em uma tarde, como todas as outras, não encontrei mais ninguém naquele cortiço.
E saibam amigos e, principalmente, acreditem em mim: nunca mais tomei café com leite.
Também nunca mais nos vimos, né Duilio?
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