O mascate

O menino desceu do bonde na Rua Guaicurus, subiu pela Rua Vespaziano e entrou na fábrica de meias"Sarandy". Que gostosura descer do bonde pulando de costas contra a gravidade em um manejo dos pés, o direito fincado no solo e o esquerdo dando um tranco para trás para se equilibrar e não cair de costas em um gesto de exibicionismo e de malabarismo idiota, infantil. Coisas de moleque, quando se tem uma idade sem noção dos perigos. Trazia nas mãos um currículo manuscrito à tinta azul e um anúncio que havia recortado do jornal "O Estado de São Paulo" inserido nas páginas de ofertas e oportunidades anunciando um emprego como auxiliar de escritório.

Naqueles tempos na década de 50 havia também trabalhado na Rua do Curtume, como auxiliar de faturamento nas Lojas Assunção de Utilidades Domésticas. Tinha alguma experiência, o que, provavelmente, iria facilitar a entrevista no novo emprego. Ficou impressionado ao ver como um funcionário da fábrica que redigia os livros de contabilidade e do faturamento escriturados com uma escrita gótica desenhada, perfeita, usando tinta nanquim e uma caneta madrepérola de pena mosquito para escrita fina e outra de bico mais grosso para traços mais cheios; usava um mata borrão de madeira côncavo para absorver a tinta fresca de escrever, um instrumento considerado imprescindível, indispensável mesmo, para um bom acabamento da caligrafia sem borrões.

Ficou sentado na sala de espera olhando distraído para a mesa do homem de camisa xadrez que manuseava alguns documentos do faturamento depois de bater com ambas as mãos nas bordas das folhas de papel e dependurar em uma grande mão de mola de ferro presa na parede por um prego na ponta. Ficou pensando, quando garotinho ainda, no grupo escolar em que estudara, tinham no tampo da carteira dois furos circulares com os vidrinhos de tinta azul encaixados no reservatório que o bedel diariamente enchia.

Aquilo era um desastre. O chão da escola estava constantemente pintado de borrões de tinta, quase sempre derramados pelos alunos. Depois se lembrou de um tinteiro que o pai comprara na papelaria da esquina e fazia parte do material escolar que, apesar de ter um furo no alto da extremidade da latinha, não derramava a tinta mesmo virando de cabeça para baixo. Aquilo era de alta tecnologia para a época. Parecia um tinteiro mágico, uma invenção realmente prática, pois estava definitivamente abolindo por completo o uso dos famigerados vidrinhos de depósito de tinta que o bedel obrigatoriamente vinha diariamente colocar no depósito do tinteiro das carteiras.

Enquanto esperava para ser atendido, aquelas abluções do espírito de antigas reminiscências acabaram por distraí-lo e espairecer o pensamento, enquanto aguardava para ser chamado para a entrevista. Noutra mesa do escritório, uma moça de vestido de organdi azul com os braços nus, joelhos de fora, usava um par de meias "Sarandy" rendada da cor da pele; abriu a bolsa, tirou um espelhinho quebrado, espreitou no reflexo da luz a boca de lábios carnudos reluzentes, pois, usava um batom coral cintilante com cheiro enjoativo de bago de romã. Seria ela uma escrituraria da fábrica? Mas pelo conjunto das pernas bem torneadas, vestido curto, aquele par de meias de seda "Sarandy" ornava todo o conjunto do manequim; nas orelhas dois brincos de argolas de metal dourados dependurados, parecia mais uma modelo de garota propaganda das meias da fábrica do que uma simples moça datilografa.

Nos fundos do escritório, dois sujeitos antipáticos contavam um bolo de dinheiro esparramado sobre uma mesa de linóleo liso. Seriam vendedores cobradores da fábrica, pois estavam confabulando com um homem de terno cinza de casimira inglesa, com uma cigarrilha fumegante espetada nos lábios, aparentemente dando explicações como proceder em uma venda dos artigos produzidos pela fábrica. Mostrava algumas cartelas com vários produtos e dizia em voz alta as mercadorias.

– Esta é número "8.1/2" para pés pequenos até 36; agora a "9" é para pessoas com pés até 37; acima dessa numeração, temos esta aqui que é a de número "9.1/2". Temos as lisas e as rendadas; de primeira linha, de segunda linha e a de terceira linha.

– Esta é com costura, esta outra é sem costura, depende do gosto de cada um.

E mostrava os artigos expostos sobre a mesa. E prosseguia mostrando as peças em cartelas e gesticulando, apontava para as embalagens coloridas.

– Os preços variam de acordo com a qualidade e apresentação. Esta por exemplo, é uma legítima meia "Sarandy" de produção limitada da fábrica, totalmente rendada, na cor da pele, a preferida por quase todas as mulheres.

– Esta outra aqui é lisa, na cor da pele, também é bastante disputada pela freguesia feminina.

E continuava com a preleção:

– Os homens também costumam comprá-las para presentear as esposas, as namoradas, ou as amantes.

– É um mercado cativo – dizia o sujeito rindo e mascando a ponta da cigarrilha.

O menino sentado na cadeira do saguão do escritório observava curioso aquele sujeito bem falante. Parecia um camelô em plena atividade no Viaduto do Chá, transacionando as mercadorias, com muita desenvoltura, muita lábia, muito argumento, vendendo os produtos feitos de algodão como se fosse veludo, pois neste mundo dos negócios havia sempre trouxas para tudo.

O menino ficou pensando: queria ele ser escriturário depois de ouvir o homem dando as explicações da venda dos produtos da fábrica. Acho que seria mais interessante ser mascate. Para tanto, teria que dispor de um pequeno capital para comprar os produtos pelo preço de fábrica, colocar uma pequena margem de lucro e revendê-las aos consumidores. Havia, porém, um problema. E o capital inicial, onde arranjaria? Não queria fazer nenhum empréstimo bancário porque os juros eram extorsivos, praticados por agiotas e usurários legalizados de plantão. Tinha que recorrer ao velho pai; um pequeno empréstimo que pagaria aos poucos, à medida que fosse negociando os produtos.

Estava decidido. Não mais iria trabalhar como escriturário. A partir daquele momento seria dono do seu próprio nariz. Comprou uma grande mala de viagem, encheu de mercadorias com as excepcionais e faladas meias "Sarandy" e foi a campo. Em dois meses de atividades granjeou uma boa freguesia feminina. Umas compravam dúzia, outras freguesas meia dúzia; outras, dois ou três pares e muitas outras um só par. O negócio era altamente lucrativo, porque as meias não duravam mais que uma semana e desfiavam, obrigando as consumidoras comprarem novos pares. Se ficou rico ninguém soube, porém uma coisa é certa, como tantos outros, se tornou um grande camelô, um verdadeiro mascate de plantão vendendo as meias "Sarandy" pelas ruas da grande cidade de São Paulo.

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