O mandarim manda ou não manda?

O título desta crônica foi tirado de uma frase, meio falada, meio cantada, que o Chacrinha costumava usar em seus programas. Não posso dizer que esta figura caricata – o Chacrinha – tenha sido alguém que admirei, mas a frase me veio à lembrança ao folhear recentemente o livro "O mandarim", de Eça de Queirós.

(Quando falo em "folhear" um texto de Eça de Queirós, quero deixar claro que isso é absolutamente impossível. A profundidade deste autor é tanta que incontinente, ao tocar seus livros, ao ver seu nome impresso, uma inenarrável emoção assoma).

Eça que é, sem sombra de dúvida, ao lado de Machado de Assis, quem melhor escreveu em língua portuguesa, conta neste livro memorável, embora pouco conhecido, a história de um homem e a sua consciência: um homem que matou o mandarim!

A constatação final é extremamente dolorosa. O personagem central, demonstrando conhecer a fundo a humanidade, conclui que, apesar de todos os seus conselhos resumidos na frase "nunca mates nunca o mandarim", jamais teria seus conselhos seguidos, pois a oportunidade, conforme lhe foi apresentada, era "muito boa pra ser desperdiçada".

Trágico! Todos os dias nós assistimos a "assassinatos de mandarins".

São as negociatas, as fraudes, os irremovíveis (aqueles que se "apegam" tanto ao cargo – às benesses do cargo, claro – que se tornam irremovíveis). São os pequenos "assassinatos" morais, os gestos que não dizem nada e dizem tanto, a indiferença.

E assim, nesta tática copiada das avestruzes, "fechamos os olhos para não ser vistos"; passamos pelas ruas e nos abstraímos da realidade. Matamos nossos mandarins quando negamos um auxílio por ínfimo que seja.

Claro, temos argumentos fortíssimos! Não podemos alimentar vícios; não podemos sustentar vagabundos. Os zoológicos têm isso muito claro: não alimente os animais!

E, no roldão de nossas decisões pessoais e intransferíveis, crianças rolam de fome no "buraco quente", "na Favela do Gato", "nos viadutos da Baixada do Glicério", "nos canteiros das marginais", na consciência embotada dos matadores de mandarins. Pequenos e inocentes mandarins que não mandam nada. Absolutamente nada!

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