O Hospital da Cruz Azul

Depois de viajar quase três horas entre ônibus e metrô, lá estava eu novamente defronte ao prédio número 356 da Avenida Lins de Vasconcelos.

Olho para sua fachada e constato quantas diferenças existem diante daquilo que ele era há muitos anos atrás e o que é hoje. O portão de entrada não é mais o mesmo e uma rampa que leva os automóveis a um grande estacionamento assumiu o lugar da antiga entrada.

Atravesso a rua e lentamente vou adentrando em seu interior. Agora existe um elevador que leva as pessoas para o pátio, aonde, anos atrás, chegávamos pela escadaria. Fico no primeiro andar e ao chegar ao pátio percebo que suas alterações foram mais profundas que aquelas percebidas lá da rua.

O velho prédio construído na década de 30 está preservado em todos os seus detalhes e em sua entrada principal permanecem os belíssimos metais dourados, cuidadosamente polidos, como se fossem banhados a ouro. Está todo cercado com telas de aço.

Os antigos jardins e a grama foram substituídos por calçamento e a movimentação de carros em seu interior é grande. Do velho hospital, apenas o antigo prédio foi preservado e agora está cercado por edificações gigantescas e modernas construídas ao seu redor, frutos de sua ampliação.

Já no interior do antigo prédio, noto que não existem filas, apenas um funcionário solitário e uniformizado que fica atrás de um balcão de informações.

Atravesso o grande hall de entrada e chego ao corredor daquilo que um dia foi o hospital da Cruz Azul de São Paulo, hoje modificado e transformado apenas em um de seus ambulatórios, visto que a maior parte dos procedimentos hospitalares é realizada nos novos prédios.

Subo a escada e chego ao primeiro andar. O costumeiro burburinho e a movimentação de pessoas misturadas a choros de crianças não existe mais; apenas pessoas que aguardam serem chamadas estão sentadas nas salas das respectivas especialidades. No grande corredor quase vazio ouve-se agora apenas o sinal sonoro dos computadores alertando os números das senhas e das salas onde estão sendo chamados.

Já com minha senha nas mãos, enquanto aguardo minha vez, meus pensamentos voam bem longe e me vejo nos anos 70, quando meus filhos, ainda muito pequenos, eram atendidos neste corredor. Foram várias às vezes que aqui estive, juntamente com minha esposa, procurando cura para os males que teimavam em atacar meus dois filhos.

Quantas e quantas vezes reencontrei neste corredor amigos que não via há muito tempo ou superiores hierárquicos que me comandavam e que, por motivos de promoção ou transferências, estávamos separados há muitos anos. Eles também traziam para cá seus filhos e esposas para serem medicados.

Infelizmente, neste corredor, transitando por outros pavimentos, ou mesmo em seu pátio, encontrei pela última vez com companheiros que já em idade avançada, estavam acometidos por males que os levaram para sempre. Recordo-me de todos eles e até daquilo que conversamos. Conheço histórias incríveis ocorridas no interior deste hospital envolvendo velhos companheiros.

Enquanto aguardo, fico atento às pessoas que passam pelo corredor na esperança de que apareça algum conhecido, mas… Nada, nenhum deles aparece.

Em 1992, estive naquela que foi a primeira grande ampliação da Cruz Azul, ou seja, a maternidade, e nela, exatamente no dia 12 de junho, nasceram minhas primeiras netas: as gêmeas Mariana e Marina.

De lá para cá, voltei algumas vezes para exames de rotina e problemas com cálculos renais, e sempre fui muito bem atendido.

Em pé defronte a uma das portas do primeiro andar do velho prédio, deslumbro a região baixa do Cambuci. Por ali ainda prevalecem as casas antigas com seus velhos telhados hoje sujos pela chuva ácida. Ainda me vejo dentro de uma viatura de infantaria ou do corpo de bombeiros, lugares onde trabalhei, percorrendo o velho bairro. Aproveito ao máximo este momento exclusivamente meu e sou despertado pelo som da caixa eletrônica de chamada onde aparece o número de minha senha. Não sei o que me espera dentro daqueles envelopes gigantescos cheios de resultados dos meus exames. E lá vou eu, quem sabe se esta não será minha última chamada?

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