"O homem põe e Deus dispõe"

O homem põe e Deus dispõe. Desde pequenina ouvia essas palavras de minha avó Sebastiana, sábia mulher, nascida e criada em Brotas, mas que viveu aqui em São Paulo, desde que meus pais se casaram em 1941. Morávamos em um casarão na Barra Funda, e outro dia passei lá em frente por motivos de trabalho e então muitas lembranças vieram à minha mente, inclusive esse velho ditado.

Ela repetia isso sempre que alguém se queixava de algum plano frustrado. E nos ensinava que a vida, seu curso, sua duração pertencem a Deus e por mais que nós homens a desejemos controlar, acabamos frustrados se não temos fé. A humanidade se desenvolveu muito, mas em sua vã sabedoria, sempre esbarra nos desígnios de Deus, que para nós são impossíveis de desvendar. Se tivermos fé e confiança nele, somos até capazes de entender, mas jamais de desvendar.

Agora, mais que nunca, me lembrei das palavras de minha avó. Tenho enfrentado dificuldades e sofrimentos intensos com a doença de meu marido que luta contra um câncer no pulmão, desde janeiro de 2012. E a palavra certa é luta – porque foi o que aconteceu neste pouco mais de um ano.

Consultas e mais consultas, toneladas de exames de laboratório e outros mais específicos, infindáveis sessões de quimioterapia. E tudo isso não foi capaz de vencer a doença. Agora – embora não saiba – meu marido encontra-se em seu leito de agonia, sendo tratado com carinho imenso pelos médicos e enfermeiros que o controlam e visitam diariamente.

Nas reuniões que tive com os médicos e nas pesquisas que fiz por minha própria conta, descobri que o caso de meu marido, na literatura médica, se enquadra dentro de um prazo de seis meses a um ano de vida, dependendo da pessoa. O câncer foi descoberto em janeiro de 2012, mas sei que já estava lá escondidinho há um pouco mais de tempo. Assim, o que o homem pôs, Deus dispôs.

Quando fomos chamados para mais uma reunião – já que não havia nada mais a ser feito terapeuticamente e o tratamento estava passando para a fase de medicina paliativa, foi "prognosticado" talvez um prazo de um mês para que a agonia terminasse. Mais uma vez, a luta desse homem forte surpreende até o médico que acabou se tornando seu amigo e já está durando quase três meses.

O que nos conforta é que o tratamento paliativo é feito de medicamentos, procedimentos médicos, mas antes de tudo de muito carinho e atenção de todos os que trabalham no home-care e no in-care, incansáveis cuidadores, que podemos chamar de carinhosos amigos nesta hora tão difícil.

Mas, acima de tudo o que mais nos conforta é saber que "o homem põe e Deus dispõe" e que ele, em sua infinita sabedoria, tem um propósito para tudo isso, um desígnio para nós indesvendável, ininteligível, mas que em nossa fé, quando o aceitamos e o enfrentamos com a ajuda de Deus, nos tornamos mais fortes nele.

Sábia avó Sebastiana, que com suas palavras simples, seu ditado tão antigo quanto podemos lembrar, nos incutia a fé no Pai Todo Poderoso e nos preparava para a vida.

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