Corria o ano de 1960, eu cursava o terceiro ano primário na Escola Professor Demosthenes Marques, era uma escola estadual num galpão de madeira, localizava-se no trecho urbano da Via Anchieta na esquina com a Rua Regino Aragão no Moinho Velho. Naquele tempo não havia semáforos na Anchieta, por isso a travessia de pedestres, principalmente dos garotos da escola, era feita pelo Guarda Castro. Lembro-me perfeitamente daquele policial, era da “Guarda Civil”. Usava um capacete branco parecido com uma tigela, vestia luvas brancas também. Sua arma era um cassetete de borracha na cintura, seu apito ficava pendurado por um cordão trançado na parte superior do uniforme azul marinho. Nós garotos nos juntávamos em bandos na calçada e esperávamos o guarda Castro parar o trânsito de uma das mãos de direção e atravessávamos até o canteiro central, logo depois ele liberava o trânsito e fechava o outro lado da avenida. Além de “guarda de trânsito” ele cuidava da segurança da escola e do quarteirão, havia um respeito muito grande da população, chegando ao ponto de fazer “vaquinha” para lhe dar presentes no aniversário e no Natal. Ele também estudava, cursava o ginásio no período noturno na Escola Modelo que ficava bem em frente ao Demosthenes. Certo dia, creio que num sábado, eu saí um pouco mais cedo da aula, e vendo que não havia trânsito nenhum na Anchieta, atravessei sozinho, não esperei a autorização do seu Castro que estava comandando o outro lado da avenida. Santo Deus! Nunca mais esqueci, ele me encontrou no canteiro central da avenida pegou em minha orelha e me conduziu de volta até a calçada. A dor não foi tanta, pior foi a gozação dos colegas. Eu caí na besteira de reclamar do puxão de orelhas em casa e tomei mais uma surra da minha mãe – hoje em dia certamente ele seria processado. Claro que houve evolução na cidade, o trânsito aumentou muito, e pior, a violência aumentou muito mais. Mas, naquele tempo, já distante, nós cidadãos respeitávamos as autoridades e as autoridades nos respeitavam. A escola de madeira foi demolida há muito tempo, nunca mais tivemos notícias do Guarda Castro, mas ele com certeza fez parte da minha educação como cidadão.
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