O grande culpado

“O cinema falado é o grande culpado da transformação.”
(Noel Rosa, em "Não tem tradução")

– A culpa é do cinema falado!

O senhor vestido em terno de cantor de tango disse isso depois de se desentender com o vendedor de flores. Talvez por questão de troco ou porque lapelas enfeitadas seja, hoje, coisa rara. O outro, passante, ficou curioso ao ouvir o insólito arrazoado. O primeiro era D. Casmurro; o segundo, um tigrão do Grandes Galerias. Este último conhecia alguma coisa a respeito da tela grande. O pai fora gerente de cinema no interior em tempos remotos de matinês, trocas de gibis, cigarrinhos Pan e azedinhas da Nechar. Quis saber o que tinha Al Jolson a ver com a história. Foi atrás do machadiano.

Sol de domingo, coisa rara, refletindo nos quadros expostos na feira de artes. Sem nomes, pois na cidade que não dorme não há tempo para mesuras ou apresentações. Milhares de pessoas conversam nas esquinas, nos bares, nos elevadores. Mas não sabem seus nomes.

O cinema falado chocou mais que qualquer outra coisa. O rádio trazia sons longínquos. A televisão, quando veio, já havia o cinema. O cinema mudo carecia de realismo. O cinema falado misturou som com ação e, depois disso, o mundo nunca mais foi o mesmo.

Depois do dinheiro, só o cinema falado. Das invenções modernas, foi a que mais convulsionou a humanidade. Teve gente que foi contra, que não levava fé. Mas, em pouco tempo, ninguém mais se lembrava do cinema mudo.

Estava aí a origem da problemática. Não deixava de ter certa razão. A máquina de propaganda do nazi-fascismo jamais funcionaria sem a conjunção “som e imagem”. A partir daí é tudo consequência e justaposição de fatos. Cortina-de-ferro, guerra-fria, revolução sexual… O resto todo mundo sabe.

O cinema falado torna-se pecado original da vida pós-moderna. "O Cantor de Jazz" foi o tiro de partida e hoje expiamos a inflação, o consumismo, a violência, a corrupção. E toda essa revolta veio se amalgamar em um cravinho branco.

– Até que o tio não deixa de estar certo. Saquei o argumento!
– Pois bem! O senhor, que veio das bandas de lá, que balbúrdia foi aquela no canto da Praça?
– O busão virou da Ipiranga e pegou a moça no meio da rua.
– Matou?
– Não, mas uma porrada dessas vai levar uns 10 anos pra consertar.
– Paciência, Iracema, o chofer não teve culpa.
– É. Não teve.
Continuou com o Adoniran.
– Iracema, meu grande amor foi você! Desculpe o trauteio.
– Tá romântico hoje, hein tio?
– A mulher foi feita pro amor e pro perdão, como disse o Vinicius. E para a poesia. A mulher faz jus a toda a poesia deste mundo. Isto sem nenhuma procacidade.
– Proca… O quê?

O outro girou o corpo em meia volta. Espichou bem o olhar.
– Positivo, tio. Vê só que mulherada bonita.
– Hoje quase já não tem mulher bonita.
– Qual é meu? Tem cada modelo! Cada artista!
– Tem nada, são todas umas tísicas, umas varapaus. Tudo por causa de regime. É inanição pura. Paulette Goddard, Frances Farmer, Mae West… Sabia que a garrafa da Coca-Cola foi moldada com base no corpo da Mae West? A Gina em "Salomão e a Rainha de Sabá", a Anita Ekberg entrando na fonte. Aquilo sim é que era mulher!
– O tio conhece alguma atriz? Vai ao cinema?
– Não vou. Hoje o cinema é só corre-corre e pancadaria. Mas olho as tabuletas. Vejo pela televisão, nas capas das revistas. Até que tem uma aí, uma morenona… Sandra… Sandra…
– Sandra Bullock.
– Sim. Essa está perdoada.

Depois de algum tempo, volta o outro.
– Olha, tio, por aí na São João, tá cheio de filmes e shows eróticos. Assim de mulher pelada!
– Cruz credo, rapaz! Que rebarbativo! Isso é coisa do anhangá, do rabudo!
– Olha, tio, nem que seja um cineminha, um showzinho, uma vez na vida não vai fazer mal não.

Tempo perdido. Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Fernando Pessoa e Manuel Bandeira foram girando na sua mente. Girando, girando, como a roda gigante de Domingo no Parque. Girando, girando…

– Tudo bem. Pode ser que um dia desses eu vá!
E foi.

Dias após, desfraldada nas bancas, a manchete do Notícias Populares: “Filme pornô mata velho no cinema”.

E o "Notícias" também já não existe mais.

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