O José Esperidião estava ali parado, defronte da igreja matriz de São Geraldo, nas Perdizes. Tinha vindo a pé do outro extremo do bairro, na Barra Funda, atravessou a Avenida Pacaembu, subiu pela Rua Margarida até o Largo Padre Péricles, entrou em uma padaria e ficou na porta observando à calçada.
Todos os dias, naquela mesma hora, a moça costumava aparecer por lá, no topo da rua. De repente como sempre, ela surgiu na extremidade da calçada de fronte da padaria. Ela passou rápido. Ele olhou-a e não disse nenhuma palavra. Limitou-se apenas acompanhá-la com os olhos até que ela entrou na Rua Cardoso de Almeida, passou pela Rua Candido Espinheira e sumiu em direção da Rua Turiassú.
O barbeiro Nicoló, na esquina da Avenida Francisco Matarazzo, nº 17, entre uma tesourada e outra deu uma esticada até a porta de entrada da barbearia para ver o movimento da rua. Acendeu o cigarro de palha, deu duas baforadas, apagou o mesmo, colocou numa caixa de fósforos vazia e olhou através dos óculos na ponta do nariz para os dois lados da rua. Avistou o “Genarino” do outro lado da avenida e chamou:
– “Vená cá Gená!”.
O outro se empertigou todo, ficou “banzado” no meio da rua disse uma blasfêmia em italiano e se achegou devagar até a porta da barbearia:
– “Gená, porco canne, vá até a banca do Carmé na Praça Marechal Deodoro e joga dois cruzeiros do primeiro ao quinto na dezena do jogo do bicho”. E deu o numero que havia sonhado naquela noite.
O fato era recorrente. Às vezes, ganhava alguns trocados no palpite do jogo. Com o dinheiro extra, ganho na maciota, dava para encarar o resto do mês com tranquilidade. Porém, aquilo não era muito comum. Quase sempre perdia no jogo. O José Esperidião tinha marcado uma hora no salão do Nicoló. Iria cortar o cabelo, fazer a barba, aparar as costeletas e afinar o bigode. A dona Anunciata, esposa do Nicoló, com a vassoura em punho varria a calçada defronte ao estabelecimento e estava de conversa fiada com a Zuleica, uma morena simpática, aquinhoada a de belos dotes físicos, moradora no cortiço do Francesco Rufino, lá para os lados da Rua Doutor Candido Espinheira.
Na parede da barbearia havia um quadro com a figura de Santo Antônio de Pádua com Jesus menino, no meio da gravura que o Nicoló tinha trazido da Itália:
– “A cidade está se transformando em um albergue, uma porcaria. Tem gente de monte vindo diariamente para cá.” – disse o Lamartine passando os olhos pelo jornal O Estado de São Paulo.
A manchete dizia: “Um milhão e meio de pessoas migram anualmente para o eixo Rio, São Paulo e Paraná”.
– “Onde vamos colocar tanta gente assim? Não tem emprego para todos! A cidade tem seus limites definidos. Se mal comparada, ela é como uma casa que tem acomodação para cinco pessoas. Acaso ultrapasse esse limite haverá uma sobrecarga e tudo se tornara de difícil convivência.”
– “A cidade não tem capacidade de receber todo esse contingente de pessoas”. – disse o Ditão com ar de autoridade enquanto folheava as páginas de um almanaque de esportes.
Portanto, a prefeitura em breve terá dificuldades em administrá-la.
– “Tem remédio?” – arrematou o Rubinato que estava atentamente ouvindo a conversa enquanto engraxava os sapatos.
– ”O jeito é se conformar” – alegou o Luigi alfaiate, do número 78 da Avenida Francisco Matarazzo.
Porém, o Nicoló estava de pleno acordo com aquela situação irregular. Com o aumento da população, consequentemente teria mais fregueses na sua já concorrida barbearia. Traria mais progresso, maior desenvolvimento econômico para o comércio da região. E o papo continuava solto no salão do Nicoló.
No entanto, o José Esperidião não estava nem um pouco interessado naquela conversa fiada. Seu pensamento estava voltado para aquela misteriosa moça da subida da Rua Margarida. Quem seria ela? De onde vinha? Não sabia! Apenas se limitava observá-la naqueles poucos minutos, na parte da manhã, quando ela despontava no alto da rua e seguia pelo mesmo caminho de sempre, até sumir em uma curva da Rua Cardoso de Almeida com a Rua Turiassú.
Hoje o José Esperidião tinha que trabalhar. Estava atulhado de serviço. Saiu da barbearia do Nicoló e foi direto para a oficina mecânica do Aristodemo, lá para os lados da Rua João Ramalho. O José Esperidião era mecânico, e mecânico dos bons. O que não faltava ali era serviço de manutenção e conserto dos automóveis. A oficina estava sempre atolada de carros importados. A indústria automobilística nacional ainda não havia se instalado no Brasil. Havia muitos Buicks, Chevrolets, Lincolns e Fords, todos eles de procedência norte americana. Tinha outras marcas européias diversificadas para serem consertadas também. Serviço é que não faltava ali.
Em cima da cabeça do José Esperidião dependurado na parede, havia uma fotografia de uma linda mulher de curvas retilíneas esculturais, sorrindo para ele e para o mundo. Olhou para a foto e mais uma vez pensou naquela moça da Rua Margarida. Estaria ele apaixonado por ela? Há um mês que vinha todos os dias religiosamente esperá-la na porta da padaria para vê-la passar. Aquilo seria um amor platônico ou uma fantasia de sua mente distorcida?
Como de costume, a moça passava sem notar a presença dele ali parado, no meio fio na porta da padaria. Acompanhava-a com os olhos até ela sumir em direção a Rua Turiassú. O Aristodemo, o dono da oficina mecânica notava a sua desatenção quando estava debaixo de um automóvel remexendo na caixa de cambio. Deu uma sacudidela na juba leonina que lhe caia entre os olhos e disse:
– “Zé, presta mais atenção no que esta fazendo homem! Você está invertendo a peça. Quando for montá-la não vai ficar alinhada, e a engrenagem não vai alcançá-la”
Aquela observação do Aristodemo tinha lógica. Estava mesmo distraído, com o pensamento nas nuvens. O José Esperidião estava decidido. Amanhã, sem falta iria acabar com aquela incerteza. Colocou um terno alinhado de três botões, penteou com Glostora os cabelos a lá Rodolfo Valentino, foi fazer a barba e aparar o ralo bigodinho fino no salão do Nicoló. Colocou um sapato mocassino preto de bico fino, e foi esperar pela moça na padaria do largo padre Péricles. Ela não tardaria a passar.
Olhou para o relógio. Oito da manhã. O caixa da padaria estava distraído conversando com um freguês a respeito do último jogo do Corinthians:
– “Foi pênalti!” – dizia o homem de camisa vermelha, enquanto molhava o pão com manteiga no café pingado com leite.
– “Não, não foi!” – retrucava o caixa da padaria, remexendo em um punhado de balas e chocolates no canto esquerdo do balcão.
– “Mas o Ronaldo foi derrubado dentro da área” – afirmava o freguês de vermelho.
– “Foi fora da grande área.” – afirmava o caixa da padaria.
– “Conversa de botequim.” – pensava o Esperidião.
Pediu também uma média com pão e manteiga. Não estava disposto a entrar naquela conversa fiada entre os dois homens. Limitava-se olhar com ansiedade para o ponto fixo onde a moça deveria despontar. Não demorou muito e ela apareceu. A incerteza do Esperidião durou apenas uns instantes. Ela estava um pouco ofegante da subida da Rua Margarida. Vestia de azul com um bom gosto que tornava aquela imagem de austeridade uma verdadeira garridice.
A principio ela pareceu-lhe mais alta e mais sutil:
– “Olá!” – cumprimentou.
A moça estava evidentemente espantada com a investida audaz daquele sujeito que ela nem sequer conhecia. Logo estavam lado a lado. Olharam um para o outro sem proferir nenhuma palavra. O José Esperidião, no entanto, quebrou o silencio e falou primeiro:
– “Sabe, tenho-a visto diariamente aqui no pedaço. Sempre na mesma hora. Já há algum tempo estava disposto a lhe falar, porém, nunca me deu a suficiente coragem. Só hoje é que tive a audácia necessária de me aproximar de você”.
A moça parecia atabalhoada. Não sabia o que responder. Estava ali parada, com um estranho ao seu lado. Afinal o que aquele sujeito que ela nunca tinha visto antes na vida estava ao seu lado lhe falando? Seria mais um dos loucos existentes pela cidade? Achou que sim. O Esperidião lhe perguntou o nome. Ela titubeou um pouco e finalmente lhe disse:
– “Rita! E o seu?”
– “José!”
Agora parecia que o ar de incerteza começava desanuviar naquela atmosfera de desconfianças:
– “Sempre que posso vejo-a subindo a Rua Margarida, atravessar o Largo Padre Péricles, entrar na Rua Cardoso de Almeida e desaparecer pela Rua Turiassú”.
– “Você anda me seguindo? Como sabe que eu faço esse caminho todos os dias”.
O José Esperidião corou. Não queria que a moça pensasse mal dele. Realmente a seguia até aquele ponto e nada mais. Não sabia mais nada a seu respeito. Onde morava ou trabalhava. Apenas tinha simpatizado com aquela moça. Estava disposto a namorá-la. Quando chegaram ao entroncamento da Cardoso de Almeida com a Turiassú se despediram:
-“Foi um prazer em conhecê-la. Até amanhã, Rita!”
– “Até amanhã!”
Olhou-a afastando-se em direção do largo da Pompéia. O José Esperidião estava feliz. Conseguira conversar com a moça. Agora já sabia alguma coisa a seu respeito. Pelo menos o seu nome, Rita. Sorriu e completou:
-“Rita que o meu coração por ti palpita!”
Amanhã sem falta estaria novamente esperando por ela na subida da Rua Margarida. Porém, a Rita não deu mais o ar de sua graça, nunca mais apareceu por lá. Tinha resolvido definitivamente mudar o itinerário.
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