O folclórico Jacaré

Meu marido foi das últimas levas de portugueses que buscavam outros países para não servirem o exército na África. O serviço militar durava cinco anos e poucos retornavam das Colônias, devido a doenças contraídas, em sua grande maioria provocadas por mosquitos. Meu cunhado mais velho por falta de visão ou provisão, foi o único dos irmãos a prestar, o que causou grande sofrimento ao meu sogro e à minha sogra. Enfim, sempre o que chegava tinha o objetivo de trazer o irmão mais novo. Assim meu marido desembarcou em Santos em Abril de 1959, e em São Paulo no dia seguinte, já estava trabalhando como barbeiro na Alameda Barão de Limeira e a noite estudando no Colégio Marechal Deodoro. Tinha 14 anos de idade. Foi se acostumando na mesma toada e raramente, depois de casados, saíamos à noite, uma vez que ele não tinha horário para chegar, nos proporcionou vida extremamente digna e confortável. Aos Domingos, porém, nunca (nestes 40 anos) almoçávamos em casa: fôssemos nós ao Degas (Rua Teodoro Sampaio), às Cantinas do Bixiga (Tavolla, Roperto, Dona Gracia), à Avenida Ibirapuera (Livorno), ao Braz (1.060, Balila), à Avenida Santo Amaro (Bayuvar, Le Coq Hardi), ao Centro (Gigetto, Familia Mancini, Al Manara, Churrascaria Moraes), à Lapa (Cantina Romana), aos Jardins
(Lellis, Di Piero) etc., mal chegávamos, não importando o horário, cedo ou tarde, O Jacaré do Exército da Salvação chegava atrás. Nunca chegava antes. Sempre depois. Contribuíssemos ou não, colocava a mão no bolso e nos deixava uma mensagem bíblica. Severa ou suave. Jacaré foi o grande marqueteiro da salvação.

e-mail da autora: [email protected]