O estrondo da Freguesia do Ó

Houve dois grandes acontecimentos quando a Freguesia, metaforicamente falando, era ainda periferia. Hoje, tem-se rede bancária, prédio de luxo, supermercados, até faculdade.
O primeiro ou o segundo dos acontecimentos, falha-me a memória agora, foi quando a T.V. Tupi veio gravar uma cena de novela na ponte do rio Tietê, Ponte do Piqueri. O movimento: a pressa da dona de casa esperando a outra terminar a tarefa começada, da moça mais diligente esperando a outra caprichar no cabelo, a descida tagarela para a várzea, os olhares ansiosos e por fim a mentira talvez do diálogo não acontecido com o artista. Enquanto isso, os homens trabalhavam e não viam. Só sei que o barulho foi pra mais de uma semana.
Já o segundo acontecimento ou talvez o primeiro causou mais estrondo, literalmente falando, pois a fábrica de pólvora, ou depósito de pólvora – sei lá – da rua Cel. Bento Bicudo pegou fogo. A loucura: vidraças estilhaçando, vigas do telhado da fábrica ou depósito chegando até o rio como se fossem mísseis, a Freguesia do Ó já teve seu dia de Iraque, mulheres com máquinas de costura ou rádios-vitrolas na cabeça correndo como se fossem Sansão ou Maciste, Maciste que coisa mais antiga. Por isso até hoje não me provoca pena a música: "Lata d'água na cabeça lá vai Maria, lá vai Maria…"
Como neste e também no outro, eu não estava em casa. Que sina! Então, quanto à verdade, o barulho infernal do estrondo da fábrica, pois aí contei não só com o relato da molecada como também de minha mãe.

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