O dia que menosprezei a minha sorte

Pode passar o tempo que for nunca mais irei esquecer esse momento. Aconteceu em um sábado de Carnaval do ano de 1965. Eu havia planejado ir passar o Carnaval na Praia Grande com a família, onde tínhamos um apartamento. Estava trabalhando desde cedo e perto do meio-dia levei um passageiro até o Bairro do Pari. Na volta, passei pela Rua Bresser e ao cruzar com a Rua Almirante Barroso notei que o Rafael Ranieri, colega taxista, estava no seu ponto que ficava naquela esquina. Parei para cumprimentá-lo e tomarmos um cafezinho no bar da esquina.

Enquanto conversávamos ao lado do seu carro se aproximou um senhor vendendo bilhetes da loteria federal que iriam ser sorteados no fim daquele dia. O velhinho insistiu tanto para que comprássemos o bilhete e só ai percebi uma coisa bem interessante, pois ele levava uma série de seis bilhetes inteiros em sequência de números. Por exemplo, os milhares tinham todos os números iguais e só o último era o que mudava 06415-06416-06417-06418-06419-06420, era uma sequência que tinha ido para o Estado de Minas para serem vendidos lá, pois isso era o que dizia o carimbo estampado no verso dos bilhetes e como não foram vendidos por lá na última hora foram enviados para serem vendidos em São Paulo, pois estavam estancados como se dizia na gíria naquela época.

Mas o que mais me impressionou foi que notei que um dos bilhetes tinha os números que eram quase os números da chapa do carro do Rafael, pois a chapa do carro dele era 50 64 14. Quando notei isso, peguei o bilhete em minhas mãos e mostrei para o Rafael dizendo a ele:

– Olha só é quase a tua chapa no bilhete!
Ele não se impressionou com isso e disse ao bilheteiro:
– Se tiver o 14 eu compro inteiro.

Mas esse bilhete estava em minhas mãos e eu tinha quase que a obrigação de comprar os dois pedaços que decidi comprar, pois era o que se aproximava mais da chapa do carro dele. Naquela época em que esperava minha carta de chamada para imigrar para os “States”, eu realmente não vivia um bom momento, pois a carta de responsabilidades não chegava, o que me provocava muita ansiedade. Eu acredito muito em destino e o meu já estava demarcado desde que eu havia nascido.

Então, em vez de comprar o 06415 que estava em minhas mãos devolvi o bilhete para o velhinho e comprei o cachorro que era o 06420 (dois pedaços). O prêmio era de 80 milhões de cruzeiros (a inflação reinava) para o bilhete inteiro de dez frações e os dois pedaços, se eu acertasse, me renderiam 16 milhões. Como vendi nosso carro por $2.500 milhões antes de sair de São Paulo com aquele dinheiro dava para formar uma pequena frota de uns oito carros e isso talvez fosse mudar muita coisa em minha vida.

Mas aí o velhinho bilheteiro andou mais uns dois quarteirões no sentido da Av. Celso Garcia e entrou em uma loja de roupas e ofereceu para o dono da loja que, sem hesitar, comprou o 06415 inteiro, 10 frações. E no fim da tarde já era 80 milhões mais rico, pois esse foi o número premiado daquele sábado de Carnaval de 1965. E eu ganhei a aproximação do primeiro prêmio, que dava mais ou menos o valor das frações. E como diz o velho ditado "O que é do homem o bicho não come".

Não vou dizer que se eu fosse o ganhador iria desistir da minha viajem aos “States”, mas com certeza poderia ter sido uma viagem diferente, acompanhado pela minha família. Já se passaram mais de 47 anos desde que consegui sem querer desprezar a minha sorte, pois ela estava em minhas mãos. Mas nunca esquecerei daquele momento. Nunca… Mas depois daquele dia, Deus me reservou momentos felizes por esse mundo afora. Obrigado meu Deus.

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