O dia que hospedei um ladrão

O ano era 1966, por aí.<br><br>Estava eu de plantão na portaria da Madre Cabrini. Era no período da tarde.<br><br>Tinha-se o costume de hospedar irmãs de outras congregações que pedissem pousada.<br><br>E chegou uma "irmãzinha" muito humilde, com apenas uma malinha.<br><br>Eu fui pedir permissão para a superiora, pois sem o aval dela nada se fazia. Obediência.<br><br>Mais tarde fui servir o almoço que nem era mais horário, mas ela disse estar com muita fome.<br><br>Mas algo dentro de mim, uma cisma, um sexto sentido. Observando-a bem vi que seus sapatos estavam muito sujos, coisa que irmã nenhuma jamais teria, desmazelo.<br><br>Subi, para arrumar seus aposentos e, curiosa, abri a maleta. Levei um grande susto, pois no lugar de roupas femininas, havia roupas masculinas.<br><br>Os dormitórios ficavam no mesmo andar, o nosso de um lado do apartamento e o das internas do outro lado.<br><br>Desci correndo e fui falar com a superiora, que imediatamente tomou providências.<br><br>Outra vez, noite alta, entrou outro ladrão no galinheiro que ficava no bosque. Seu Joaquim pendurou no sino, nos acordando assustadas. <br><br>E como estava na hora do silêncio rigoroso, a gente só observava seu Joaquim aos berros.<br><br>Eram apenas ladrões de galinhas. Mas nos assustaram muito. Pequenas lembranças de uma menina.<br><br><br>[email protected]