O dia em que o despertador tocou em hora indevida

Com 15 anos trabalhava como auxiliar de escritório em uma papelaria famosa na época (Cia. Oscar Rudge de Papeis) no centro da cidade (Largo São Francisco) bem em frente à Faculdade de Direito. Para chegar até lá pegava o ônibus da linha 80 (Vila Nova Conceição) cujo ponto inicial era bem próximo da minha residência e o ponto final no Vale do Anhangabaú, sob o viaduto do chá.<br><br>Descia do ônibus e em cinco minutos já estava na loja cujo horário da entrada era 8h e o da saída era 18h, quando tinha início o transtorno para a volta à residência. Naquela época o trânsito em São Paulo não chegava a 5% do que é hoje. O problema não era o trânsito, mas sim pegar o ônibus para retornar à residência. Chegando ao ponto do coletivo a fila já estava longa e era praticamente impossível ser transportado no primeiro ônibus. Sempre no segundo e algumas vezes até no terceiro e invariavelmente em pé.<br><br>No final da década de 40, não havia agência bancária nos bairros, não havia shopping Center e as grandes lojas comerciais e magazines eram centralizadas. Escritórios comerciais e de profissionais liberais em geral também só no centro o que tornava a região central, excessivamente movimentada e a grande maioria do comércio e dos escritórios coincidiam com o fim do expediente às 18 horas, daí o transtorno.<br><br>Mas havia uma alternativa. Era mais cara, mas confortável. Bem próximo ao ponto do ônibus havia o ponto do lotação. Eram carros de praça, geralmente Ford ou Chevrolet da década de 40 que no horário de pico faziam lotação com o mesmo trajeto do ônibus. Comecei então a usar esse meio de transporte. Cada carro transportava quatro passageiros. O melhor lugar era na frente ao lado do motorista; o pior, no meio no banco de trás. Durante o percurso sempre havia conversação e geralmente era o motorista quem iniciava um assunto. Os motivos variavam, mas o que predominava era sobre futebol. Às vezes todos participavam, mas eu adolescente, só ouvia.<br><br>Uma das vezes que o assunto não era futebol, um motorista, de nome Gabriel, muito brincalhão, engraçado e até cômico, contou:<br> – “Fui convidado para o casamento de uma sobrinha, que ia se casar com um rapaz de família abastada. Depois da cerimônia religiosa, a festa era em um buffet. Chegando lá e depois de algum tempo começaram a ser servidos pequenos salgadinhos. Com a fome que eu estava dava para comer a bandeja toda, mas o bom senso me permitia pegar só um e assim por diante até chegar a vez do sanduíche. Eram fatias de pão de forma cortadas em quatro pedaços que descontando as cascas ficava um sanduíche de 4x4cm pincelado com algum patê. Com a fome que eu estava seria capaz de comer um pão de forma inteiro e sem tirar a casca, mas a coerência recomendava pegar um por vez. Docinhos não eram meu forte, mas bolo sim. Aguardava um pedaço generoso, mas veio uma fatia um pouco econômica. Depois do bolo, cumprimentei os noivos, despedi-me de alguns parentes e amigos e fui embora. Chegando em casa e para satisfazer meus quase 120 quilos, comi um sanduíche de mortadela (com pão francês) e fui dormir”.<br><br>Continuando a conversa, Gabriel contou:<br>- “Quatro ou cinco meses depois também fui convidado para o casamento do filho de um amigo. Esse amigo, também pracista, morava em uma casa simples, humilde até, mas tinha um quintal razoavelmente bom, pois o terreno media 10x30m. Decidiu fazer uma "festinha" para comemorar o casamento do filho nesse quintal. Conseguiu algumas lonas emprestadas cobrindo uma boa área do terreno. Juntaram-se várias mesas e ao redor cadeiras e bancos completavam o ambiente. Terminada a cerimônia religiosa, os convidados se encaminharam para o local da "festinha". Sobre as mesas, volumosas coxinhas, empadinhas, croquetes… No fundo do quintal uma improvisada churrasqueira prontinha para receber picanha, alcatra, frango, linguiça… Ao lado um barril de chopp e refrigerantes a vontade. Fui direto para o churrasco. Comi logo dois (com pão francês), dei uma chegada nos "salgadões". Comi alguns. Voltei para o churrasco. De vez em quando visitava o barril de chopp e consequentemente<br>também o mictório e assim sucessivamente fui obedecendo meu apetite até chegar o momento do bolo, mas depois de tanto comer, nem se fosse uma fatia bem econômica conseguiria comer. Nesse momento pensei com os meus botões: “que diferença para o casamento da minha sobrinha!””.<br><br>E era assim que ocorria durante o percurso dos lotações. Sempre havia alguém que iniciava um assunto ou contava "causos" ou conversava-se sobre futebol.<br><br>Certa vez, ao entrar para ocupar um lugar no carro, notei que o motorista não era um dos que costumava nos atender. O assento da frente já estava ocupado por um senhor cujos cabelos ligeiramente grisalhos evidenciava que a aposentadoria estava se aproximando. No banco de trás ao lado do motorista, um rapaz aparentando 25 anos. Entrei e sentei no meio e logo em seguida entra um quarentão portando uma linda mala de couro tipo executivo demonstrando um cuidado especial provavelmente por ser nova. Colocou-a no colo e segurava como se fosse um bibelô. Preenchidas as quatro vagas, o pracista inicia o trajeto rumo ao destino. Percorridos mais de 500m pela Avenida Nove de Julho, nenhum dos ocupantes do veículo pronunciou uma única palavra, fato que jamais aconteceu desde que comecei usar lotações.<br><br>O carro já estava próximo ao Túnel Nove de julho e nada, nenhum pio. Percorrido o túnel, logo a seguir começava pequena decida rumo a zona sul e os mudinhos continuavam mudos. Meditando pensei que o motorista era novato no percurso, havia pessoas de várias idades, não seria eu, um adolescente, que iria iniciar algum assunto. Dentro do carro silêncio total. Nem o movimento do motor funcionando se ouvia. Mas quando nos aproximamos do cruzamento com a Avenida Brasil a surpresa: disparou a campainha de um provável despertador colocado dentro da mala que era transportada com muito cuidado. <br><br>Nesse momento eu não sabia se ria ou se rezava uma Ave Maria, pois de súbito me veio a mente ter lido que terroristas portam bombas relógio em suas investidas, e com o cuidado que ele levava a mala, tudo era possível. Depois do acontecido, enfim o dono da mala tenta se explicar:<br>- “Com…Com…Comprei um des… des… despertador e pe… pe… pedi pa… pa… para o vend… ven… vendedor já dei… já dei… já deixar pro… pro… programado pa… pa… para des…des…despertar as se… se… seis e me… me… meia da ma… da ma… da manhã, mas de… mas de… mas deve ter se en… se e n… se enganado e pro… e pro… e programou pa… pa… para as se… se… seis e me… me… meia da ta… ta… tarde. Des… des… desculpem”.<br><br>Quando acabou de explicar, o carro já estava na Avenida Santo Amaro e na altura do número 600 o senhor dos cabelos de pré-aposentadoria foi o primeiro a descer. Na altura do número 900 foi a minha vez. Como eu estava sentado no meio, pedi licença ao gaguinho e procurei descer com o máximo cuidado e sem encostar na mala pois, se ele estivesse men… men… mentindo talvez esta história jamais fosse escrita…<br><br><br>E-mail: [email protected]