Antes de qualquer coisa, permitam que eu me apresente: meu nome é Joaquim Ignacio e, atualmente, tenho 71 anos. Sou filho do 'seu' Alcides e de Dona Zezé; sou casado com Dona Odete e tenho 5 filhos e 5 netos.
Minha formação profissional é voltada para a área da saúde, especificamente ao setor de Enfermagem; a Enfermagem é minha paixão, parece que eu nasci talhado para esse tipo de profissão e atuei tanto em hospitais quanto em empresas.
Aposentado há vários anos, confesso que sinto saudades, chego a sonhar que estou trabalhando, fazendo gotejamento de soros, aplicando injeções, trabalhando em diálises hemo e peritoniais, chego a acordar cansado… No entanto, também já fui um burocratão daqueles, de terno azul marinho, gravata e diário oficial sobre a mesa, um inferno…
Ora direis: “onde Nelson Rodrigues entra nessa história? Quosque tandem abutere patientia nostra, Ignatius, heim? Heim?”. Explico…
Tive uma mocidade destrambelhada e só sosseguei meu facho após casar e ter filhos (claro que quem os teve, pra valer, foi a Dona Odete!). Na época de meu casamento, eu trabalhava na Cidade Universitária, na antiga Escola de Comunicações Culturais, ECA hoje em dia e, apesar de já ter visto o diabo chupando manga, estranhei muitíssimo a ambiência da faculdade, tanto da parte dos professores quanto da parte do alunado.
Gente muito misteriosa, estranha, pretensamente todos gênios da comunicação. A maioria dos professores não tinha formação acadêmica, era "notório saber" que trabalhavam nas respectivas áreas: Teatro, Rádio e TV, Cinema, Relações Públicas, Jornalismo, Biblioteconomia e Editoração. Vou citar um exemplo: o Coordenador do Departamento de Jornalismo era o Walter Sampaio, jornalista famoso, apresentador de TV, ex-diretor de jornalismo da rádio e TV Bandeirantes, professor e aluno ao mesmo tempo. Deu pra entender? Mas vamos ao que interessa, vamos deixar essas loucuras da Lei de Diretrizes e Bases para os que dizem entender do assunto Educação e falemos do teatrólogo Nelson Rodrigues (aliás, um jornalista sem diploma!).
Minha sala na ECA era frequentada por funcionários e alguns alunos que vinham conversar, informar-se ou tirar dúvidas antes de fazer alguma solicitação no âmbito administrativo. Eu era, também, muito requisitado para ler e escrever cartas para o pessoal da limpeza, terceirizados, que normalmente tinham poucas luzes. Esse pessoal vai ter muito a ver com a história que a partir de agora começo a contar.
Um belo dia, perguntei a um funcionário terceirizado:
– Fulano, você quer aprender a ler e escrever?
– Quero, 'seu' Ignacio. Meu maior sonho é escrever meu nome e ler os letreiros dos ônibus…
– 'Tá bom’. Na hora do almoço, vem aqui na minha sala… Começo a te ensinar hoje mesmo…
E comecei o que com o tempo se tornou um curso de alfabetização e, posteriormente, um preparatório para os Exames Supletivos, Madureza naquele tempo.
Outros colegas entraram no rolo e até professores da ECA deram aula para meus alunos. Para que vocês tenham uma ideia da dimensão que a coisa atingiu, uma vez por semana o Prof. Oswaldo Sangiorgi dava aulas de Matemática pro meu pessoalzinho; o Prof. Isidoro Blikstein ministrava aulas de Português e Literatura; de minha sala, as aulas passaram para o auditório da faculdade e, seguindo nosso exemplo, na Politécnica um colega criou um curso de Técnico Prático de Laboratório…
Um dia, estava eu lendo o jornal/mural quando senti uma mão em meu ombro, a mão de Sábato Magaldi, que recentemente tinha completado seu doutorado, defendendo uma tese sobre o teatro de Nelson Rodrigues:
– Escuta, Inacião: convidei o Nelson Rodrigues para fazer uma palestra para os alunos do curso de Teatro e da EAD, mas não estou vendo o menor entusiasmo da parte deles…
– Ué, o que você queria? Todo esse seu pessoalzinho acha que sabe tudo… Não vão perder tempo ouvindo um senhor, mesmo sendo um cara que mudou a cara do teatro brasileiro… Mas diga lá o que você quer…
– Eu queria que os seus funcionários insistissem com os alunos para que venham à palestra… Vai ser mais um bate-papo seguido de um debate aberto a todos…
– Vou ver o que dá pra fazer…
Sete horas da noite. Dois ou três alunos em frente ao auditório do curso de Teatro. Falo com o Sábato:
– Tem dois ou três gatos pingados ameaçando entrar no auditório. Meu pessoal não conseguiu convencer nenhum dos seus aluninhos geniais a assistir a palestra…
– E agora? Daqui a pouco o Nelson chega e não tem platéia…
– Bem, se você não se incomoda, eu posso trazer o pessoal do curso de Madureza pra assistir a palestra. Acho que vai fazer bem pra eles…
– Faz isso, faz isso…
Na mesa, além do Nelson, claro, estavam Miroel Silveira, Marika Gidali, Paulo Emílio Salles Gomes e o Sábato Magaldi. O auditório estava lotado, tinha gente em pé, gente sentada nos degraus do corredor, entre as cadeiras, gente do lado de fora, trepada em cadeiras e banquinhos para poder ver o palco.
Antes de começar a falar, Nelson pediu café sem açúcar. Suas mãos trêmulas acabaram por derramar metade do café em sua camisa. Risos. Começa o bate-papo.
Terminou, aplausos. O carro leva o Nelson e os demais pra TV Cultura, onde ele vai ser entrevistado…
Meu pessoalzinho estava feliz:
– Ignacio, eles falam tão bonito, né? Será que um dia eu vou falar que nem eles?
– Vai, claro que vai. Continue estudando que você chega lá…
E muitos chegaram. Deixaram a vassoura, os paninhos, as flanelas e entraram em cursos técnicos e em faculdades. Hoje são engenheiros, físicos, técnicos.
Dia desses encontrei um deles em frente à igreja dos Enforcados. Reconheceu-me, me abraçou. É físico em uma empresa em São José dos Campos.
– Sabe, Ignácio, só uns quatro anos depois é que eu vim saber quem era o Nelson Rodrigues. Quando ele morreu, eu vi na televisão e falei pra minha mãe que tinha ido numa aula que ele deu. Ela não acreditou: “onde que pobre chega perto dessa gente? Já te falei que esse negócio de livros, de escola, não dá camisa pra ninguém… o negócio é pegar no guatambu pra ver o peso das coisas…".
Pois é, amigos. De vez em quando a TV Cultura reprisa a entrevista do Nelson. Se vocês tiverem a oportunidade de assistir, reparem que ele está com uma camisa azul, sem gravata e uma mancha de café no peito. Lembrança do dia em que ele falou para uma platéia maravilhosa, talvez a mais interessada que ele teve!
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